A dor dos outros

Eu tenho muito dificuldade para ir em velório. Ok, ninguém aí exatamente gosta de ir em velório. Mas o que me causa mais ansiedade ultimamente não é só a constatação meio óbvia de que alguém morreu, sabe – isso causa tristeza, o que é diferente. A ansiedade é porque nos velórios em que eu tive que ir nos últimos anos eu percebi que tenho reações meio desproporcionais ao meu vínculo com a pessoa que morreu, ou com o que eu estava sentindo até dois metros antes da porta de entrada.

Na verdade eu tenho que me conter, sozinha e da forma mais discreta possível.

Começa quando eu vejo alguma pessoa. Os pais. O neto. Alguém que, com justiça, tem o direito de estar extremamente triste naquele momento. Muito mais triste do que eu. Muito mais triste do que eu estava, pelo menos.

E eu não consigo deixar de achar que estou fazendo errado. Como se eu estivesse tentando roubar aquele momento. Como se eu estivesse emprestando a dor de outra pessoa.

Ultimamente eu consigo pensar nessa situação e repetir para mim mesma que empatia não é uma coisa ruim. Mas continuo com aquela impressão de estar fazendo errado.

Considere que eu tenho tanta prática com sentimentos que este aqui é meu banner de twitter porque eu tive um momento de epifania quando li este trecho:

We call them feelings because we feel them. They don't start in our minds, they arise in our bodies.

Mas, enfim. Mesmo que eu não consiga convencer a mim mesma, ouçam a minha voz da razão: empatia não é uma coisa ruim. Se você esteve perto de chorar por histórias distantes, ou se cruzou essa fronteira – tudo bem. Não é uma coisa ruim. Aliás, é uma daquelas coisas que podem ser muito boas.

E não tem problema emprestar um pouco da dor de outra pessoa, porque a verdade é que existe dor o suficiente para todos.