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Faz umas semanas que estou enrolando uma reflexão sobre identidade, e supostamente esse é o último problema que eu preciso resolver porque talvez quem sabe dizem por aí o resto da minha vida está super nos trilhos. Então vamos lá.

Eu preciso começar a escrever este texto porque toda vez que eu tento pensar sem papel e pixels eu volto pro mesmo parágrafo:

Identidade era uma coisa fácil de se pensar quando você tinha 15 anos e decidia que você era, sei lá, uma pessoa “independente”. Você dependia da sua mãe e do seu pai para comer uma bolacha, mas super tinha um “espírito independente” ou qualquer coisa inventada assim.

Meu ponto é: quando você era adolescente, você achava que estava pensando em “identidade”, mas na verdade estava pensando em “potencial”, em “possibilidades”, em “metas”. Aí um dia você chega na minha idade e já era, sinto muito, pare de se enganar.

Claaaaaro que existem aquelas pessoas que estão aí no mundo mudando de carreira depois do nascimento dos netos, entrando na faculdade aos 70 anos, descobrindo que na verdade ele sempre gostou de gatos, e não de cachorros, depois de três décadas de latidos em casa. Mas é difícil, dá trabalho, você pode sair arranhado.

E a não ser que você já tenha quebrado o lacre e esteja com o dedo no botão vermelho, é hora de reconhecer a sua identidade pelo que você é, pelo que você faz, e não pelo que você poderia fazer.

E tem mais, claro. Sempre tem. Nessas últimas semanas eu ouvi duas vezes da Ligia que esse negócio de ser uma criança inteligente é só querer sofrer e ser infeliz. Talvez tenha a ver com este problema particular – ter sido uma criança inteligente só alimentou aquela tal ideia de que você pode conquistar o mundo. Suas metas eram uma coisa insana, porque afinal você tinha tantas possibilidades.

Ah, o potencial desperdiçado…

Mas é isso. Você tem 33 anos, tentando rebobinar a fita neste mês que falta para os 34 (rebobinando a fita porque você claramente é uma criança dos anos 1980) e tendo que olhar a contragosto pra quem você realmente é (e não quem você poderia ter sido, ou gostaria de ter sido, ou teria sido se não tivesse certeza de que odiaria tudo aquilo). E não é um filme tão ruim (um pouco longo e chato, talvez), ou pelo menos não é um filme tão deprimente assim.

“As coisas até que deram certo”, você pensa. Mas o sujeito da frase continua sendo “as coisas”, porque jamais será você, porque se for você é porque você fez, porque você escolheu, porque você é responsável.

Faz umas semanas que estou enrolando a reflexão sobre a identidade, e o outro motivo para enrolar é que tudo acaba soando como um perfil vagabundo na coluna lateral do seu blog.

“Eu não sou emotiva – exceto quando estou assistindo ‘Buffy'”.

“Eu faço almoços veganos – mas você não imagina a quantidade de ovos que eu usei para fazer um bolo.”

“Adoro ficar na minha casa – e também adoro ir para lugares muito distantes.”

Sempre tem a contradição. Sempre precisa ter a contradição. Eu não sei pensar sem contradições, e isso não significa nada.

“Curto um clichê – mas vou morrer antes de me descrever como ‘complicada e perfeitinha’.”

(Até porque eu não sou complicada. Ou perfeitinha.)

Se eu fosse falar de análise de discurso (que eu nunca entendi muito bem, mas vamos lá), eu poderia ler muitas informações em cada uma dessas linhas vazias. Eu gosto de cultura pop. Eu tenho interesses ambiciosos em várias coisas envolvendo comida. Eu tenho preocupações com questões de gênero. Eu sinto culpas. Eu sinto saudades. Eu gosto do que significa sentir saudades.

Mas o que isso tudo realmente diz?

Talvez tudo isso diga que eu não preciso escolher uma frase definitiva (ou definidora), porque identidade é uma coisa muito mais completa do que quantas horas de sono eu tenho por noite (não o suficiente), se eu gosto do meu trabalho (não o suficiente), o quanto eu realmente queria pensar sobre isto e escrever este texto (não o suficiente).

Mas… e se eu quiser uma frase definitiva/definidora? Será que consigo encontrar? Será que era melhor não encontrar?

A frase definitiva/definidora precisa me fazer diferente? Ou ser diferente é ilusão, e eu nunca vou conseguir me definir de um jeito que não sirva para milhões de pessoas?

Mas… mesmo que eu queira essa frase, e mesmo que eu aceite que ela seja tão comum, não sei se conseguiria encontrar. Ou se teria convicção do que eu encontrar.

Eu sou uma pessoa que não sabe bem quem é?

Porque quando eu penso muito nesse assunto, eu não sei se eu sou quem eu realmente sou ou quem foi mais fácil ser. Quem as outras pessoas viam e esperavam, e que eu só repeti para não ter que me explicar.

Talvez o caminho seja tentar responder a pergunta: quando eu sou mais feliz?

Eu sou mais feliz quando posso escolher entre ficar sozinha e ficar com poucas pessoas.

Eu sou mais feliz quando acho que sei alguma coisa e quando eu acho que estou aprendendo alguma coisa.

Eu sou mais feliz quando consigo encontrar as grandes perguntas nas fontes menos prováveis.

Eu sou mais feliz quando o bolo cresce do jeito que deveria crescer e fica mais gostoso do que eu esperava, e eu sou mais feliz ainda quando posso escrever que essa frase é literal e metafórica.

There is no news. There is only the truth of the signal.

Era uma vez uma série de TV chamada “Firefly”. Você começa a assistir a dita série e pensa que é a melhor coisa do mundo, aí ela é obviamente cancelada pelos powers-that-be no meio da primeira temporada.

Era uma vez um filme chamado “Serenity” que continuou a história de uma série de TV chamada “Firefly”. Ia estrear no cinema, mas obviamente os powers-that-be desistiram algumas semanas antes da data anunciada, então você baixa pela internet (eventualmente compra o DVD, quando ele é lançado) e assiste sozinha no computador, chorando copiosamente.

Eu nunca achei que faria a tatuagem de uma série de TV, mas sempre soube que faria uma tatuagem. Só não sabia bem o que fazer. Até que em 2015 – uns 10 anos depois daquele filme e daquele choro – eu estava rabiscando uma das frases.

CAN’T STOP THE SIGNAL.

A essa altura, esta frase virou nome de trope. Sabe no final do filme, quando o herói está cercado e tudo parece perdido? Até você descobrir que ele não vai morrer com aquela informação sobre a conspiração, porque antes de fazer alguma coisa idiota para se encontrar nessa situação ele já havia enviado para alguém ou para todos e para toda a internet? É isso. Porque você ou eles não podem parar o sinal. A informação. A verdade.

Estava comentando sobre essa frase com o Denis, e aconteceu este momento de pura poesia:

Tem gente que não gosta de tatuagem de texto, porque o corpo é tridimensional e curvo e móvel. Os músculos se contraem, a pele estica e torce e dobra. Mas eu tenho um vago interesse por texto e escrita e palavras e letras. Vago.

Era novembro ou dezembro de 2015 quando eu comentei com a minha irmã que tinha resolvido fazer uma tatuagem. Ela fez careta. Eu fiz uma piada sobre o casamento dela (que seria em janeiro).

Acabei demorando mais de um ano depois disso.

Era novembro de 2016 quando eu decidi como ela deveria ficar. Era dezembro quando eu finalmente agendei. Para janeiro, porque meu feriado no trabalho não seria feriado no estúdio.

(Nesse meio tempo, deu para doar sangue a ajudar minha mãe a se acostumar com a ideia.)

E aí foi isso. A primeira.

Porque o sinal sempre encontra um caminho.

Absolutamente tudo normal dentro da minha cabeça

Esta aqui é a versão resumida dos meus três primeiros dias de 2017.

01/01/2017

02/02/2017:

03/03/2017:

Pois é.

Estava eu sendo horrivelmente comportada no primeiro dia do ano. Acordando com suco verde. Comendo churrasco e sorvete em quantidades aceitáveis para um ser humano comum. Não bebendo nada com álcool. Bebendo chá de cidreira sem açúcar à noite.

Aí chega o segundo dia do ano e eu passo duas horas em completo sofrimento no trabalho. Ok, drama. Mas estava bem difícil e eu estava com dor de cabeça e eu estava enjoada e eventualmente eu vomito no banheiro – e a dor de cabeça e o enjoo vão embora junto com o meu café da manhã e a minha dignidade.

Então chega o terceiro dia e eu estou escrevendo – no papel mesmo – e começo a ter a impressão de que não estou escrevendo direito. Aí eu percebo que estou escrevendo direito sim, só não estou conseguindo ver direito a palavra que estou escrevendo. Queria culpar o monitor mas, eh, nem estava olhando para o monitor.

Mas está tudo bem. Está tudo bem. Calma.

Fui para o banheiro (calma, desta vez eu não vomitei) para pingar colírio nos meus olhos, porque talvez isso resolva, certo? Não, não resolveu nada. A essa altura estou com a visão borrada e uns movimentos e luzes no canto e não está mais tudo bem e eu não estou calma e na verdade eu estou ligando pra minha mãe porque eu claramente vou ficar cega.

Essa história continua comigo no pronto-socorro (acompanhada pela minha irmã, porque a essa altura minha mãe tinha ligado pra ela) e fazendo uma tomografia e eventualmente sendo dispensada porque não tem nada de errado com a minha cabeça (ha! in your face!) e o oftalmologista do hospital tinha vazado umas duas ou três horas antes.

Passei depois pelo oftalmologista do convênio, que examinou meu fundo de olho e garantiu que também está tudo bem por ali. Estou com consulta marcada no neurologista, em todo caso.

Mas a conclusão geral parece ter sido de que eu estou apenas estressada.

Yay.

A vontade dos outros

Estava eu em uma conversa sobre uma não-adesão à formatura. O motivo: “os amigos não vão participar”. O impasse: a família queria participar. E quem tem o poder de decisão aqui – o ser humano que vai terminar a faculdade ou o ser humano que pagou as mensalidades?

É claro que em algum momento dessa conversa eu deixei de lado os problemas dos seres humanos em questão e perguntei para a minha mãe, com mais de 10 anos de atraso:

Você ficou chateada por eu não ter aderido ao baile/jantar/cerimônia de formatura?

Ela disse que não, nunca. Fiquei meio preocupada mesmo assim, mas uns minutos atrás eu decidi que minha mãe simplesmente nem tinha essa expectativa. Ela sabe a filha que tem.

Tanto sabe que quando eu me formei de vestido jeans (talvez meio curto) na oitava série e minhas amigas com seus vestidos de festa questionaram o que minha mãe achava disso, eu só podia apontar que ela estava comigo na loja e pagou pelo vestido.

Já falei isso milhares de vezes, mas eu sempre tenho essa impressão de que a vida é um arco narrativo de “Malhação”, e em uma dada semana o tema será natal e brinquedos de infância e esse será o único assunto discutido. Ou o tema será gravidez e todas as suas amigas vão ficar grávidas na mesma semana, e vocês nunca mais terão mais do que 20 minutos de conversas adultas antes que o assunto seja desviado para “alimentação sólida” ou que a conversa inteira seja sequestrada por um grito qualquer de uma criança chamando a atenção para ela.

Mas onde eu estava mesmo? Ah, sim. Arco da semana. O arco da semana é: o quanto das nossas decisões deve seguir a nossa vontade, e o quanto deve ser guiado pela vontade dos outros?

E sabe onde eu vou chegar com isso? Em Fifth Harmony. Porque sim. Porque o drama pop da semana foi a menina que não queria mais ficar numa girlband. Porque convivência cansa mesmo. Porque ela tem 19 anos. Porque está fazendo isso faz 20% da vida dela. E, sei lá, porque talvez queira tentar fazer uma coisa que seja dela.

E ela nem vazou de cara, porque contratos e porque responsabilidades. Justo.

E enquanto isso ela precisou lidar com uma galera tentando convencer a não fazer isso. Porque as outras pessoas não queriam, e foda-se o que ela queria.

E quando ela finalmente consegue vazar, rola o pânico geral no fandom. Porque o fandom não quer que as coisas mudem, e foda-se mesmo o que ela quer.

De novo: o quanto das nossas decisões deve seguir a nossa vontade, e o quanto deve ser guiado pela vontade dos outros?

Eu digo isso como uma pessoa que consome com toda a alegria do mundo as reuniões de New Kids on the Block, Take That e Busted. E também como uma pessoa que entende que minha vontade de ouvir “Keep on movin’” ao vivo não é importante o suficiente para levar pessoas de volta para uma vida que claramente era tóxica para elas.

É óbvio que a vida é mais do que você, e o mundo é mais do que você, e se você não conseguir olhar para fora esse #2016 não vai acabar nunca. Mas nosso comportamento padrão parece ser: olhar só para perto, e esperar que os outros olhem, de longe, para você.

A vida é mais do que você, e o mundo é mais do que você. E meu primeiro instinto é esquecer do problema dos outros para pensar em um problema só meu. Mas o segundo pode ser largar mão do meu umbigo.

Aquele vestido jeans? Para mim, sempre foi uma concessão mútua. Minha mãe não me sugeriu um vestido de madrinha de casamento, e eu não falei que iria de calça jeans e camiseta.