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dez

Sobre o experimento Westlife

Peço desculpas a você que um dia cometeu a infelicidade de me seguir no Twitter e se agora sente constrangido demais para me dar unfollow. E nem é pelos ataques de #ogra, momentos de #crazycatlady ou surtos motivados pela final da #daviscup. O fundo do poço foi esse dia e meio de maratona #Westlife auto-infligida.

Para tentar me explicar pela síndrome de #vergonhaalheia que eu distribuí por aí, achei melhor resumir o que foi que motivou e o que foi que eu concluí nessa pequena aventura. O que aconteceu foi que eu estava pensando em boybands. Sim, eu penso em boybands de tempos em tempos. Pior: eu penso seriamente em boybands. Não é só porque comprei ingresso para ver Backstreet Boys em fevereiro, não é só porque eu ouvi demais o último álbum do Take That. Eu realmente estou tentando entender o que é que faz de uma boyband uma boyband (developing).

No meio dessa importantíssima reflexão eu trombei acidentalmente com um disco do Westlife, essa prolífica boyband irlandesa. Sim, são 11 discos entre 1999 e 2010 (se você contar os dois de covers e a coletânea com suas seis faixas novas) – apenas 2008 não teve nenhum álbum lançado. E ainda que eles não causem nenhum tsunami, os lançamentos continuam fazendo alguma ondinha: mesmo “Where We Are” (2009), que teve apenas uma música de trabalho, foi multi-platinado.

Mas Westlife e eu já havíamos rompido alguns vários anos antes. Eu até sobrevivi mais ou menos ao “Turnaround” (2003) com suas míseras três músicas guardáveis, mas desembarquei com o infame “Allow us to be Frank” (2004). Eu gostaria de falar alguma coisa positiva sobre o wordplay do título, mas só posso dizer que No, you were not allowed. Se eu quero ouvir regravações respeitáveis de sucessos Rat Pack, eu ouço o “Swing when you’re winning” (2001) do Robbie Williams (que já tinha seu próprio wordplay no título). Se eu quero ouvir regravações sem graça de sucessos Rat Pack, eu me interno em algum lugar. E depois eu me mato.

(Se você pensar bem, o Brian McFadden realmente sabe abandonar encostos. Ele saiu do Westlife antes do “Allow us to be Frank” e se divorciou da Kerry Katona antes de… bom, antes de muita coisa que nem vale a pena mencionar.)

Depois dessa pequena tragédia, eu ainda dava alguma chance para os singles lançados pelo Westlife, mas desistia rapidinho porque vamos combinar que aquele dueto com a Diana Ross deve ser responsável por algum desastre natural ocorrido em 2005. Para piorar a situação, veio o segundo álbum-tributo de covers. Só que, em vez de regravar sucessos do Frank Sinatra, o Westlife resolveu gravar covers de grandes nomes da música como… O-Town.

Nesse dia e meio, eu contei 45 covers desnecessários (todos eles são) – 27 deles naqueles dois álbuns-tributo. A lista termina com “The Reason”, do Hoobastank. Mais: dos 32 singles lançados até agora, 14 eram covers. Ou seja: além de gravar essas pequenas atrocidades, eles ainda acham que aquela é a música mais representativa ou mais convincente do disco.

Mas a minha maratona Westlife, iniciada para pensar um pouco em características de boybands (sim, ajudou), também foi uma oportunidade para finalmente ouvir alguns discos inteiros com um pouco de atenção e ver se o single horrível não estava me enganando. E eu continuei caminhando nesse vale escuro dizendo para mim mesma que talvez eu conseguisse entender como é que uma boyband da qual eu gostava bastante (confissão óbvia) virou algo que causa constrangimento até em uma pessoa tolerante como… bom, eu mesma (sim, eu sou tolerante).

Resumindo tudo o que eu estava pensando enquanto colocava minha mente nesse vazio criativo, a história é basicamente a seguinte:

1) Precisamos de menos covers. Vou repetir: 45 covers lançados até agora. Removendo “Allow us to be Frank” e “The Love Album”, sobram ainda 18 covers. Em apenas oito álbuns de músicas “novas” – média simples: 2,25 covers por disco. Entre os singles, um número muito perto da metade (43,75%) também representa o conjunto de regravações.

2) Os covers precisam ser melhores. Acho até perdoável gravar um cover aqui e ali. Talvez em uma média de um por álbum. E, se a abstinência for muito forte, um lado-B a mais. Mas esse cover precisa ser uma música que mereça a regravação (semi-sucesso de uma boyband fracassada não vale) e que não exponha sua canastrice (não adianta fazer vídeo PB de “Angel”).

3) Produtores suecos são absolutamente essenciais. Enquanto eu ouvia balada atrás de balada, sempre aparecia alguma faixa mais interessante. Aí eu olhava o crédito e encontrava pessoas como Andreas Carlsson, Max Martin, Per Magnusson, Rami Yacoub, Alexandra, Andreas Romdhane. Não estou dizendo que eles acertem todas, mas a frequência de acerto dos suecos parece bem maior que a dos britânicos Mac/Hector (que têm sim algumas baladas boas, mas me matam de sono/depressão em vários momentos). E, de uns anos pra cá, a presença sueca nos discos foi ficando cada vez menor. E os discos foram ficando cada vez mais chatos.

Maaas se o objetivo é deixar esse lado pop sueco para trás e mostrar algum talento de songwriting, seria melhor chamar um Ryan Tedder para escrever junto. Ele estava nos créditos de duas músicas do “Where we are” que eu considero ouvir de novo.

4) Baladas podem ser predominantes, mas não devem ser unanimidades. Entendo que Westlife nunca foi um 5ive e sempre fez mais sucesso com baladinhas românticas, mas quebrar o ritmo ajuda bastante. “Gravity” (2010), o último, super me enganou com um pop interessante na primeira faixa e depois caiu na série interminável de baladas (todas as outras, de verdade). Não precisa ser nada extremamente animado, mas uma “Bop Bop Baby” ou uma “When You’re Looking Like That” já resolvia o problema.

5) Podemos mudar um pouco de assunto, por favor? Entendo que Westlife sempre fez mais sucesso com baladinhas românticas (é, estou repetindo isso) e que canções de amor são o (ahem) coração de uma boyband, mas é possível sim diversificar. Ouçam um pouco de Take That e me liguem quando eu puder chamar Westlife de manband.

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