05

mar

Christopher Nolan é tipo a Lady Gaga para o Michael “Jedward” Bay

Acho adequado começar admitindo que não ligo muito pro Christopher Nolan. Vi “Amnésia” no cinema, morri de tédio vendo “Insônia” em vídeo, só consegui terminar aquele filme dos mágicos de forma mutilada e com muita insistência do meu fretado e não terminei de ver nem o primeiro “Batman” dele até hoje.

Mas isso não é desprezo pelo Nolan nem nada disso. Mesmo que ele odeie mulheres ou sei lá. Eu nunca fui atrás da filmografia do Clint Eastwood ou da Sophia Copolla ou dos Coen – simplesmente, não é uma coisa que eu faça. Mas, afinal, as pessoas dizem que o Nolan é genial e que “Inception” mudou a vida delas e eu resolvi acreditar nos testemunhos.

Como eu já confessei desconhecimento sobre a filmografia do Nolan, não vou nem tentar falar que ele não é genial a partir de um filme só. E como eu não posso fazer nada sobre os sentimentos de terceiros, também não vou tentar convencer ninguém que sua vida não mudou.

Vou só falar que “Inception” não fez absolutamente nada por mim.

Vamos começar pela história. Certo. Aquela história supostamente tão complexa que você vai precisar de um guia ilustrado pra entender. Certo. Só que o negócio não é tão complexo assim.

Aliás – isso é uma coisa que me incomoda muito desde “Matrix”, quando a propaganda falava que era impossível explicar o que a matrix. Seguinte: a matrix era uma realidade virtual gerada pela inteligência artifical que controlava o mundo com o objetivo de manter os seres humanos naquele estado inconsciente em que eles serviam de bateria. E o menininho de “O Sexto Sentido” enxerga gente morta como você, seu psicólogo infantil iludido. “Amnésia” é a história contada na ordem inversa de um homem com amnésia anterógrada que faz tatuagens de informações que ele considera importantes na sua investigação sobre a morte da esposa.

E “Inception” é a história de um grupo de profissionais que invadem os sonhos das pessoas para descobrir segredos – e, em um trabalho específico, invadem o sonho de um cara para plantar uma ideia. Se a história cabe em um período, não venha me discursar que é a coisa mais complexa que você já viu.

Não importa que o sonho tenha sei lá quantos níveis (para disfarçar a falta de profundidade do roteiro, digo, de cada sonho) até o tal limbo – a história é contada mastigadinha e detalhadamente em duas horas e meia de filme.

O que é esse pião? O filme explica. Aliás, o filme explica tanto que o Joseph Gordon-Levitt explica a ideia do token com todas as letras para a Ellen Page.

De quem é esse sonho? O filme conta. Das piadas sobre a chuva ao Gordon-Levitt sobrando no sonho dele para preparar o kick.

O que é o kick? Eles também explicam da forma mais didática do mundo para a Ellen Page (que serve para fazer as perguntas e ouvir as respostas no seu lugar, caso você não tenha percebido).

Mas, sabe, a história é mais do que a história. A história é toda aquela coisa profunda do Leonardo DiCaprio e a culpa com a morte da esposa e aquela coisa de sonho e realidade e ele não consegue mais sonhar e fica usando os equipamentos sozinho e… putaqueopariu, Nolan, você está recontando a história de “Amnésia” para mim?

Eu já vi “Amnésia”. Mas, aparentemente, menos de duas horas não é tempo o suficiente para contar a história do homem atormentado pela morte da esposa. A morte que ele causou. E depois entrou em um ciclo de negação e culpa. Então vamos recontar isso em duas horas e meia.

Duas horas e meia. O negócio é tão interminável que nem Gordon-Levitt e Cillian Murphy estavam me animando. Mesmo sendo duas horas e meia com efeitos visuais lindos. A Ellen Page entortando a cidade? Bacana. O Gordon-Levitt nadando no ar? Divertido. Mas a novidade passa, e aquele sonho maldito não termina.

Não que eu não goste de efeitos especiais. Adoro efeitos especiais. Mas efeitos especiais podem servir para me divertir muito ou para emocionar.

“Inception” não me divertiu. Eu não quero repetir que o filme é longo, mas o filme é longo. Simplesmente. Aqueles truques de edição, de começar com a parte final? Meh. Eu realmente não entendo como o Nolan conseguiu, mas até os cortes rápidos entre cenas de ação (perseguição no primeiro sonho, lutas no segundo, tiros no terceiro, mindfucking no quarto) estavam começando a me dar sono. Eu só olhava a cara daquelas pessoas dormindo dentro da van e sentia vontade de dar um soco naquele sorrisinho estúpido do Gordon-Levitt.

Fora esses momentos não-intencionais de agressividade, “Inception” tampouco tem poder emocional. Cillian Murphy encontra o pai moribundo no sonho e eu sinto saudades de quando ele estava naquela nave indo explodir o Sol. O Ken Watanabe tosse sangue no sonho 1 e morre no sonho 3 e tudo o que eu consegui pensar foi “ai, saco, agora tem que ir atrás desse outro cara que morreu”.

O filme é duro, não tem sensibilidade. Em parte porque eu não estou ligando para nenhum deles, em parte porque tudo aquilo é a droga de um sonho. E, depois de duas horas e meia, vem uma daquelas soluções rápidas em que dá tempo do DiCaprio disparar o kick no Watanabe no limbo pra voltar pro sonho 3 a tempo de sentir o kick para o sonho 2 e depois o do sonho 1 e acordar na primeira classe.

Mas – wait for it – o pião não parou de girar antes que a tela ficasse preta. Palavra grande para vocês, queridos: ambiguidade. Será que você está na matrix, digo, no sonho? Só se for o sonho mais chato que eu já pude lembrar.

Parece que o Nolan ficou constrangido de fazer um happy ending. Todos estão bem, ninguém morreu. Nossos heróis estavam atirando em projeções – é inofensivo. A armação toda até ajudou o Cillian Murphy a superar seus traumas com o pai. Olha só, destruir essa megacorporação é bom para o mundo, sabe? E o Greedo atirou no Han Solo e tal. Então vamos colocar alguma coisa no final para as pessoas saírem do cinema com cara de interrogação, e não com sorrisos bestas. Eu estava sentada com cara de poucos amigos, mas talvez tenha sido só eu.

Em algum momento das duas horas e meia (se eu não tiver dormido no meio e tido um sonho etc etc etc), alguém fala que você só percebe as incongruências quando o sonho termina. If only.

6 comentários

  1. Lenny disse:

    Nossa senhora. O seu namorado/a não “compareceu” no dia em que você viu o filme, foi? Rsrsrs.

  2. lia disse:

    MEUDEUS hahahahaha e que tipo de filme você acha bom então? Crepúsculo?

    • Lhys disse:

      Não vi Crepúsculo, então nem posso responder.
      Só acho incrível que eu explique tudo de Inception que não funcionou *comigo* e as pessoas se incomodem tanto.

  3. Filype disse:

    Que desânimo. Um texto bem elaborado, bem escrito, e comentários como esses. Arrisco à dizer que a leitura dos dois aí deve ter sido na pegada 160 caracteres. Aliás, talvez até sejam as mesmas pessoas que respondem no Yahoo! Respostas coisas como “naum sei rsrsrs”.

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