08

mar

Você (não) precisa ser velho para saber algumas coisas

Tinha uma fábula possivelmente japonesa sobre uma tribo que decidiu acabar com todos os velhos. Todos. Vou contar meio rápido porque não lembro bem da história, mas era mais ou menos assim:

Era uma vez uma tribo que decidiu matar todos os seus velhos. E matou. Eis que, algum tempo depois do gerontocídio, outra tribo aparece por lá cobrando alguma dívida enorme que estava determinada em um acordo antigo das duas. O acordo é legítimo e tal, a a tribo está perdida. Maaaas um dos membros da tribo não matou a própria mãe – ela está escondida, mas viva. Bom, esse ser rebelde vai se aconselhar com a mãe sobre o tal acordo, e a mãe fala para ele: “Tudo bem. Responde para eles que vocês cumprirão a sua parte do acordo se eles [devolverem alguma coisa que ninguém nem sabe bem o que é]”. O moço repete essa resposta, e a outra tribo vai embora na hora – sabendo que essa história de que todos os velhos estão mortos é mentira.

Lembrei dessa história quando vi uma galeria “Patente do telefone completa 135 anos; veja como eram os aparelhos antigos”, no UOL. Mais especificamente, eu lembrei dessa história quando cheguei nesta foto:

A legenda diz: Modelos exibiram, em feira de Taiwan, aparelho da Ericsson descrito como um 'telefone satélite'. Seria um GPS?

Se você não consegue ler a legenda, ela diz:

Modelos exibiram, em feira de Taiwan, aparelho da Ericsson descrito como um “telefone satélite”. Seria um GPS?

Mas foi só olhar para essa discretíssima antena para saber o que é que “telefone satélite” significa. Não, gente, não é GPS – é um sistema parecido com o do Iridium, só que usando a rede da ACeS (Asia Cellular Satellite System), como está escrito na antena. Basicamente, era um celular GSM que podia usar o serviço de satélite (mais caro) se não encontrasse sinal. Ideal para você, que gosta de navegar em alto-mar, escalar montanhas ou usar a ilha de edição de vídeo do CJE.

Como eu sou uma pessoa claramente doente, ainda fui lá descobrir o modelo e o ano da coisa – é o Ericsson R190, que tinha lançamento marcado para a segunda metade de 2000. A essa altura, o Iridium não tinha vingado (em termos comerciais; a rede ainda tem uso militar e tal) porque era ridiculamente caro, tinha uma antena enorme e os serviços normais de cobertura e roaming internacional estavam melhorando.

E aí alguém vai falar que eu estou tão velha que fiquei rabugenta e implicante (not true – isso eu sempre fui), mas é o seguinte: você pode não ter idade para ter vivido a Segunda Guerra, mas vai pesquisar e consultar e ler antes de escrever alguma coisa muito errada na sua matéria, certo? Certo. Você também vai olhar os dados da Copa do Mundo de 1958 ou dos Jogos Olímpicos de 1988 ou quem ganhou o carnaval no ano passado. Então por que ser irresponsável com tecnologia?

Eu achava que aquela fábula fosse uma lição para você respeitar os seus avós, mas depois vi que é uma coisa sobre respeitar história e memória. Não estou dizendo para você matar todas as pessoas com mais de 65 anos – mas, se for cometer uma atrocidade dessas, guarde registros de informações importantes. E depois lembre-se de consultar esses registros.

Mas, sinceramente, pode ser mais rápido perguntar pra uma pessoa velha. E depois procurar no Google.

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