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abr

Quem é o culpado pelas ilusões austenianas?

Uns três anos atrás, confessei em outro blog que tinha torcido pra Jane Austen casar com o pretendente fictício e meio rico de “Becoming Jane”. Confessei isso achando estranho ter feito essa viagem assistindo um filme romântico sobre uma autora de livros românticos. Semana passada, eu descobri que era tudo culpa da Jane Austen. Foi ela quem me ensinou a deixar essa coisa de amor romântico de lado.

O resultado disso foi um artigo que me deixou até meio orgulhosa de mim mesma. E juro que eu não vivo muito orgulhosa de mim mesma. Super me considero, mas geralmente acho que tudo ficou bem mais ou menos. E para escrever o tal artigo, tive que fazer a revisão da obra de Jane Austen, que fazia um bom tempo que eu não lia.

A propósito – já falei sobre meu livro com as obras completas da Jane Austen? Deixa eu contar! Tinha visto acho que na Saraiva, uma edição enorme em inglês, com capa dura e dust jacket. E eu basicamente precisava daquele livro. Era 1999, eu só tinha lido três livros dela (“Orgulho e Preconceito”, “Emma” e “Razão e Sensibilidade” e ainda não sabia que conseguia achar as obras completas da Jane Austen na internet. E o livro custava R$ 72, o que não era pouco para quem vivia de mesada. Long story short, eu ganhei um bônus de R$ 300 para usar nas livrarias Edusp porque tinha ido bem como treineira na Fuvest (sim, eu tinha alguma habilidade com testes uns anos atrás). Não tinha esse livro da Austen na Edusp – mas tinha o Atlas de Anatomia em dois volumes que minha irmã precisava porque tinha passado em Fisioterapia. O bônus foi todo para o Atlas (acho que sobrou uns dois ou três reais), e aí me deram Austen como prêmio de consolação. But I digress…

Vamos voltar para o final de semana: eu relendo pedaços de Austen e suas heroínas prudentes. Quando finalmente terminei de escrever, resolvi que queria assistir as adaptações para a TV. E, sério, Austen tem muitas adaptações.

Outra confissão: vi “Orgulho e Preconceito” versão überfiel da BBC (a do Colin Firth), versão filme-mala da Keira Knightley, versão Bridget Jones e versão mórmom (sim, existe). Vi “Emma” com Ewan McGregor de peruca (é a da Gwyneth Paltrow), versão Kate Beckinsale (lembro de ter achado o Knightley sem graça demais), versão “Clueless”. E “Razão e Sensibilidade” versão Emma Thompson (velha demais para Elinor) e versão microssérie BBC (é simpática, mas o filme é melhor). Também vi “Becoming Jane” e “The Jane Austen Book Club”, o que pode indicar sérios problemas (não por causa desses filmes, que são até interessantes, mas pelo conjunto da obra). Ah, também teve “Lost in Austen”, que eu podia ter passado sem.

Mas não tinha visto nenhuma adaptação de “Mansfield Park”, “Northanger Abbey” e “Persuasão”.

Então eu resolvi começar com um “Mansfield Park” da década de 1990, com o Jonny Lee Miller como Edmund. E foi… decepcionante. Exageraram no tema de escravidão (tratado de forma beeem mais sutil no livro). E o Sir Bertram é completamente creepy. O pior é que transformaram a Fanny Price em uma escritora irônica e outspoken.

A experiência foi tão ruim que eu resolvi dar uma chance para “Mansfield Park” da Billie Piper. Apesar da capa. Te adoro, B, mas você é uma péssima Fanny Price. Entre a metade com cara de enfezada e a metade risonha, só posso dizer que erraram muito a mão, de novo.

Mas talvez o problema seja a Fanny Price. Marianne Dashwood, Lizzy Bennet e Emma Woodhouse são personagens muito mais interessantes; já a Fanny Price é completamente sem graça. Para complicar, o Edmund Bertram é o mocinho mais desanimador inventado pela Jane Austen. O Edward Ferrars parece um poço de atitude em comparação. Aí tentam inventar vida na personagem, e o filme sai do tom do livro.

A maratona começou mal, mas ainda tinha dois filmes para ver. São adaptações feitas pela ITV na mesma época do filme da Billie Piper.

“Northanger Abbey” foi talvez o mais bonitinho. O livro é meio sátira às novelas góticas, então tem um pouco mais de humor do que o dramático “Mansfield Park”. A heroína, Catherine Morland, é basicamente uma menina meio tonta. Nada promissor, né? Mas o Henry Tilney é um mocinho bem mais divertido, com excelentes quotes (pelo menos até a Austen resolver que ele vai casar com a Catherine por culpa – meh). O Henry Tilney do filme, que parece uma versão esquisita e jovem do Jude Law, é particularmente atencioso. Sim, o filme se esforça muito para fazer o Tilney parecer completamente apaixonado pela Catherine – o que não é bem o caso. Então talvez o problema seja o caso Henry/Catherine ser tão pouco passional. Os roteiristas começam a improvisar, sabe.

Finalmente, “Persuasão”. A Anne Elliot é talvez mais irritante que a Fanny Price. Ela faz tudo o que pedem, tenta agradar o mundo, sofre e sofre em silêncio. E, sério, ela precisa de amigos mais interessantes. Mas a adaptação foi mais fiel ao livro – tanto que os fãs passam mais tempo discutindo a escolha de elenco (e por “escolha de elenco” eu quero dizer “comparação entre o Wentworth de 1995 e o de 2007”) do que reclamando de pecados da adaptação.

E aí (sim, eu vou amarrar essa bagunça toda no final do post) eu comecei a suspeitar que essa crença de que Jane Austen é sinônimo de amor romântico é culpa das adaptações para TV e cinema. Transformam a Fanny em uma revolucionária (e acordam a tia dela, do nada, no final do filme). Tentam inventar que o Henry e a Catherine estavam vivendo uma história de amor. Fazem o Mr. Darcy discursar que “and I love, I love… I love you” na neblina.

Não, gente, NÃO!

Porque, produtores e roteiristas e diretores queridos, é o seguinte: a gente leu o livro. A gente passou páginas e páginas lendo sobre os sofrimentos da Anne Elliot e as bobagens da Catherine Morland e a passividade da Fanny Price. E a gente gostou o suficiente para querer assistir a sua adaptação, apesar da capa horrível. Não é preciso modernizar ninguém ou esquentar relacionamento nenhum.

Confie mais no livro. E confie mais no público.

Ou escreva uma roteiro original.

só um comentário

  1. Raquel disse:

    Pois é… não achei seu nome no post…

    Fanny Price de vez em quando dá vontade de sacudir… mas temos Mary e Henry Crawford para nos divertir em Mansfield!

    Henry Tilney é o rapaz mais alegre e inteligente de Jane Austen. E entende de tecidos! Aposto como sabe cozinhar.

    Eu sei que a maioria não gosta das versões da década de 1980, mas Mansfield Park e Northanger Abbey daquela safra são divertidíssmass.

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