25

jul

Lendo blogs, fazendo suposições e tentando ser melhor

Fui dormir ontem com a cabeça em jornalismo. Mais especificamente, sobre como eu fui parar na faculdade de jornalismo e como fugi para o mais longe que deu para fugir desse tipo de trabalho. Mas isso fica para depois.

Hoje eu acordei e percebi por que é que eu estava pensando em jornalismo. E isso fica para agora.

Vamos começar com… Torchwood. A quarta temporada tem uma personagem nova, Esther Drummond, que era analista da CIA. No episódio mais recente, ela descreveu o trabalho dela assim:

I sit at my desk and read blogs for a living.

Claro que ler os blogs não é o único trabalho – ela precisava fazer alguma coisa com o que ela lia. Então vamos deixar a própria Esther se explicar, de novo:

Yesterday I handed in a report to Alan noting that 80% of India is Hindu and that reincarnation was no longer on the table. Nothing to keep people’s behavior in check. So I predicted the most likely outcome was war with Pakistan. This morning the Indian prime minister announces his desire to reconcile with Pakistan, saying if they only have one life, they have to make it count.

Resumindo: Esther Drummond, analista da CIA, acompanha a circulação de informações na internet e escreve relatórios interpretando essas informações e indicando tendências.

Fiquei pensando na Esther por causa da última sexta-feira. Mas não, eu não estava imaginando Esther lendo manifestos na internet e entregando um relatório sobre os perigos dos movimentos de extrema direita na Europa. Por causa da Esther, eu fiquei pensando nos analistas chamados pela BBC após os ataques em Oslo.

Sim, porque logo que fiquei sabendo da bomba, fiz aquilo que pensei que fosse a ação responsável: me fundi ao fone de ouvido e abri a cobertura ao vivo da BBC. Daquela tarde de sexta-feira, lembro de ter visto quatro especialistas convidados para fazer a análise da situação enquanto os âncoras fingiam que não estavam “jumping to conclusions”. Dos quatro, um deles fez alguma menção a movimentos de extrema direita – ainda que ressalvando que não havia nada muito organizado fazia algumas décadas. Mas o grosso das análises foram “países menos centrais viram alvos por conta do menor controle em relação a EUA e Inglaterra” ou “cartoons dinamarqueses republicados na Noruega faz uns vários anos”.

Quando surgiram as primeiras informações de que o atirador de Utøya “had a Norwegian look” (como colocou o NRK, segundo tradução do Guardian), um dos analistas começou a falar sobre grupos terroristas islâmicos recrutarem gente local, que não despertaria suspeita.

Então existe um terrorista norueguês que pode ou não ter agido sozinho (ou pode ou não ser de uma organização com “two more cells”) e que permanecerá sem nome por aqui porque eu realmente não memorizei e não tentei memorizar e recomendo o mesmo para vocês. E que aparentemente considera que Islamismo é o grande inimigo.

Sabe quem mais considera isso? Os analistas que estavam comentando o caso na sexta-feira. E boa parte das pessoas que estão lendo, digo, que não estão lendo isto aqui (eu tenho WP Stats – eu sei que ninguém lê isto aqui).

Eu poderia escrever mais, mas esse texto já foi escrito por outra pessoa:

If anyone reading this runs a news channel, please, don’t clog the airwaves with fact-free conjecture unless you’re going to replace the word “expert” with “guesser” and the word “speculate” with “guess”, so it’ll be absolutely clear that when the anchor asks the expert to speculate, they’re actually just asking a guesser to guess. Also, choose better guessers. Your guessers were terrible, like toddlers hypothesising how a helicopter works. I don’t know anything about international terrorism, but even I outguessed them.

Meu único consolo nesta segunda-feira é que, apesar de eu claramente pertencer a Capitol, eu escrevi a seguinte frase em um e-mail na sexta:

analista da bbc falou a mesma coisa que report do the atlantic do ano passado — mas acho que ngm ainda sabe de nada. super pode rolar um twist nível “foram os suecos!”

Não a parte sobre acusar suecos (eu não estava fazendo isso – meu movimento inventado de unificação escandinava era só uma expressão do wtf-ness dos palpites naquele momento) – a parte em que eu falei que ninguém ainda sabia de nada. E ninguém pode falar que sabe muito, mesmo agora.

Mas os analistas estavam falando na BBC. E, ok, deve ser papel da BBC começar a analisar a situação as-it-happens. Só que isso tem consequência – uma delas pode ser fazer as pessoas olharem um pouco melhor para dentro e tentarem ser melhores do que cara que foi preso, e com uma coisa além de “eu não atirei em adolescentes noruegueses”.

E nós precisamos ser melhores sozinhos, porque a BBC ou o Guardian ou o WSJ ou o NYT não estão resolvendo o nosso problema. Aliás, o parágrafo não existe mais no NYT, mas era o seguinte:

A terror group, Ansar al-Jihad al-Alami (the Helpers of the Global Jihad), issued a statement claiming responsibility for the attack, according to Will McCants, a terrorism analyst at CNA, a research institute that studies terrorism. The message said the attack was a response to Norwegian forces’ presence in Afghanistan and to unspecified insults to the Prophet Muhammad. “We have warned since the Stockholm raid of more operations,” the group said, apparently referred to a bombing in Sweden in December 2010, according to Mr McCants’ translation. “What you see is only the beginning, and there is more to come.” The claim could not be confirmed.

Não podem resolver o nosso problema porque o que eles podem fazer é o seguinte: ler a informação que está na internet e no feed das agências, como a Esther Drummond, e achar alguém – e vai lá saber quem – para comentar. E, com sorte, achar alguém para ir até o local pedir mais informações (embora a informação que se consegue nem sempre está correta, já que o próprio número oficial de mortes recuou) e encontrar mais histórias para acompanhar.

Isso ficou muito claro com a divulgação da morte da Amy Winehouse. O primeiro trending topic disso não foi “Amy Winehouse” ou #amywinehouse – foi “Sky News”. Porque a notícia era dada como “segundo a Sky News”. Porque ninguém mais sabia de nada, mas a Sky News estava dando. E ninguém confia tanto assim na Sky News, mas pelo menos não era uma manchete sobre o “bebê-diabo”. Porque a sina de famoso que morre fora de Los Angeles é não ter o TMZ publicando a foto do corpo cinco muitos depois.

Eventualmente saiu o comunicado da polícia e da gravadora e alguém mais deve ter confirmado, porque o “segundo a Sky News” caiu. Mas, durante alguns minutos, a notícia era “Sky News noticia que Amy Winehouse morreu”, e não “Amy Winehouse morreu”. Porque assim não tinha como errar. Sort of.

Sim, gente, jornalistas, especialistas convidados e analistas fictícios da CIA estão lendo blogs e fazendo suposições.

E vocês também estão fazendo isso. Estamos todos fazendo isso.

E eu honestamente não sei o que se pode fazer a respeito disso. Só posso repetir (de novo) o conselho de um artigo do NYT de um tempo atrás:

So perhaps the only way forward is for each of us to struggle on our own to work out intellectually with sparring partners whose views we deplore. Think of it as a daily mental workout analogous to a trip to the gym; if you don’t work up a sweat, it doesn’t count.

É, eu sei.  Não estou falando de um comentário troll que você consegue desqualificar antes mesmo de acordar. Só que mal dá para acompanhar aquilo que eu quero ler – como encaixar aquilo que eu não quero?

Mas eu estava lendo isto aqui:

The role of the internet in fragmenting the public sphere has been the subject of some scholarly and journalistic interest, most recently in Eli Pariser’s excellent The Filter Bubble, which shows how Google, Facebook and other major actors filter our web searches, updates etc according to our user profiles and previous cyberhistories. So if I am an environmentalist typing “climate change” into Google, I get a different set of results from you, if you are an oil executive. The filter bubble operates on Amazon by giving personal recommendations; in its more insidious ways, it tailors our web searches to confirm our pre-existing world view without us noticing. Eventually, we may drift apart and end up living in different worlds.

E nós precisamos ser melhores, sozinhos. Ou nós precisamos ser melhores juntos. Com um jornal que você se sinta confortável lendo e também outro que você ache cretino. Com uma pessoa de quem você goste e também com uma conta de twitter que você começou a seguir por educação e que enche sua timeline de babaquices.

Não estou dizendo que vou atender os pregadores que baterem na minha porta, mas é bom ouvir alguma coisa diferente de vez em quando. Talvez sobre Danny Gokey. Ou sobre Nicolas Almagro.

só um comentário

  1. Sheila disse:

    Primeiro, eu leio seu blog tá? rs
    Segundo, obrigada pela menção e pelo elogio.
    Terceiro, sua análise é perfeita. O medo de ser furado, a necessidade de dar respostas imediatas acabam resultando em fanfarronice, má apuração, todo mundo se copiando e no fim #vergonhaalheia. É realmente difícil sair disso e garimpar pessoas que fazem um bom trabalho hoje em dia, com calma, precisão e sem preguiça.

Deixe um comentário