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set

Youzhny me deixa na mão até quando não me deixa na mão

Esse drama aí do título só pode ser compreendido por quem sofre por uma coisa ridícula como tênis. Principalmente se você insiste em torcer por gente que insiste em dar expectativas só para poder decepcionar mais em seguida.

O seu pode ter sido o Novak Djokovic (que acabou virando o tenista mais incrível de 2011, mas só depois de passar mais de três anos destruindo nossas esperanças). Pode ser Ana “primeiro set” Ivanovic. Pode ser a crença irracional de que o Lleyton Hewitt ainda tem coisa para dar (e ainda tem, se você viu o jogo de duplas da Austrália). Pode ser o Andy Murray. O meu, desde 2002, é o Mikhail Youzhny.

Até novembro de 2002, eu realmente não ligava para Mikhail Youzhny. Eu ligava para Yevgeny Kafelnikov – primeiro tenista russo a ser campeão de um Grand Slam (Roland Garros, 1996 – além do Australian Open de 1999 e quatro títulos de duplas em GS), primeiro tenista russo a liderar o ranking da ATP (1999), campeão olímpico (2000). E eu nem ligava pro Kafelnikov por causa de algum golpe ou jogo específico – eu ligava praquele cara que jogava mais de 100 partidas por ano (ele também jogava duplas), que só chamava a atenção pelas razões erradas e que era um pouco rabugento.

(Tá, eu também ligava para o Marat Safin.)

E aí que Kafelnikov e Safin estavam liderando a Rússia na final da Copa Davis de 2002, contra a França. Bom, o Safin estava liderando a Rússia – o Kafelnikov estava numa fase medonha, levou pneu do Grosjean no primeiro dia do confronto e afundou a dupla com o Safin. Chegou o domingo, França com 2–1 e o Safin passa por cima do mesmo Grosjean. 2–2.

Diz a lenda que Kafelnikov foi o bigger man que admitiu estar sem condições de levar a Rússia ao título (#ficaadica, Nole). E aí o Youzhny entrou na minha vida, digo, na quadra. Youzhny tinha ranking um pouco pior que o do Kafelnikov (ver: fase medonha), mas era um tenista de 20 anos com um título modesto no currículo – Kafelnikov, 28, tinha vinte e tantos troféus em casa. O jogo decisivo seria apenas o sexto do Youzhny na Copa Davis – depois de 4 derrotas, incluindo uma no único jogo que ainda valia alguma coisa no confronto –; Kafelnikov jogava Davis pela Rússia desde 1993.

Mas aí o Youzhny entrou na quadra. E começou levando uma lavada do Paul-Henri Mathieu. Enquanto eu fazia mais um trabalho da Mitika (relevância?) e passava mal com o placar do torneio.

(Não, a TV a cabo não estava passando aquela final. E era 2002, então o stream ainda não era esse salvador de vidas – eu só vi pedaços desse jogo anos depois, no YouTube.)

Bom, acabou que o Youzhny ganhou o quinto set daquele jogo (com uma motivação secreta do irmão mais velho), virando o confronto e dando o título da Copa Davis para a Rússia. Primeiro título de Copa Davis da Rússia (mais um “primeiro” pra lista do Kafelnikov). Eventualmente o Kafelnikov aposentou (embora tenha esquecido de avisar), e ficou o Youzhny – esse causador de emoções e desgostos que ainda atrapalha a minha vida.

Agora é 2011. Eu acordei às 6 da manhã de um domingo, olhei para a TV… e não deu. Não deu. Eu realmente não fazia questão de torcer contra o tenista brasileiro – embora isso aconteça com alguma frequência no futebol. Mas não deu.

Eu poderia racionalizar e dizer que não existe cabimento em entrar no Grupo Mundial da Copa Davis se o seu segundo jogador não consegue nem fazer um ponto no play-off. Mas eu nem tentei racionalizar naquela hora. Depois de nove anos acompanhando um tenista jogando quinto sets de partidas ganhas, perdendo para adversários avulsos e depois conquistando vitórias inacreditáveis, não existe um botão de desligar. Como desligar do tenista de 28 anos que tem mais coragem do que juízo, tinha mais dores do que condições físicas e resolve ganhar o quinto set de 14 a 12, depois de cinco horas de jogo?

Claro que foi triste ver o Mello perdendo do Tursunov no quinto jogo. Mas isso é torcer para o Youzhny – não é fácil nem quando ele ganha.

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