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out

Derrotando o unicórnio com meu intelecto superior

For fantasy is true, of course. It isn’t factual, but it is true.” (Ursula Le Guin)

Abri inocentemente o texto “Físicos aprovam ‘séries nerds’ de TV como cientificamente precisas”, na Folha Online. Pensei que fossem falar dos consultores e coisas assim, mas encontrei pessoas explicando por que gostam de “The Big Bang Theory”.

It's a warm summer evening in ancient Greece...

O que não seria completamente ruim. Eu também gosto de algumas coisas e consigo explicar o motivo em 33% dos casos.

Mas aí vem este trecho:

“Aprecio ‘The Mentalist’, ‘House’, ‘CSI’ e outras dessa leva de séries no estilo ‘smart is the new sexy’ [algo como ‘sexy agora é ser inteligente’]”, diz o professor de física da USP Osame Kinouchi. “É um refresco, depois de décadas de séries como ‘Buffy, a Caça-Vampiros’.”

Se você chegou até aqui e continua lendo, sabe que ainda estou escrevendo por causa da referência a “Buffy”. E também sabe que eu sou tão doente que acabei na resposta original do Kinouchi:

“É um refresco, depois de décadas de Charming, Buff e outras séries New Age.”

Eu gostaria muito de resistir a esse momento de fraqueza, mas preciso começar desqualificando “Charming” e “Buff”. Até porque o Sheldon também me desqualificaria quando eu digo “bordinha” para o pesquisador que está me explicando sobre “halo de matéria escura”. Se estamos falando sobre precisão científica, o mínimo que eu espero é que a análise sobre televisão (e virou análise quando surgiu uma comparação e uma referência a “décadas”) seja feita por alguém que entende de televisão.

Smart is the 'new' sexy?

Mas é claro que uma pessoa que entende de televisão saberia que “CSI”, “The Mentalist” e “House” são aquilo que chamam procedural: um gênero (televisivo, literário, cinematográfico…) baseado na investigação (médica, criminal) com caráter técnico. É um gênero que se dá muito bem na televisão porque na maioria das vezes resolve uma história em um episódio – evitando a necessidade de acompanhar fielmente e acabando com a angústia da história que ainda não acabou.

Procedurals não são necessariamente ruins. Procedurals podem ser bons. Mas procedurals não são refresco. “Law & Order” e todos os seus filhotes vivem do gênero há mais de duas décadas, e já seguiam uma tradição de produções policiais ou legais.

Nos últimos anos, as franquias (sim: franquias!) “CSI”, “NCIS” e “Criminal Minds” são algumas das donas do espaço – mas vale lembrar tantos outros programas (muitas vezes ligados a Dick Wolf ou Jerry Bruckheimer) como “Cold Case”, “Without a Trace”, “Close to Home”, “Chase”…

O que mudou um pouco foi o papel da ciência (forense) nos procedurals. Em “Bones”, a antropóloga e o agente do FBI têm a mesma importância na hora de “prender os bandidos”; em “CSI”, o trabalho de investigação é feito de provas tão científicas que a série nem se dá o trabalho de levar o caso a julgamento – afinal, o assassino sempre confessa após ser confrontado com tantas evidências.

Mas vale reforçar que o tal método científico que dá a prova irrefutável é de uma ciência cheia de licenças poéticas…

Theoretically impossible!

Assim como “CSI”, “House” é um seriado investigativo. Não são homicídios, mas o método é o mesmo: uma parte de educated-guessing, duas partes de exames, algumas pitadas de simulação mostrando o que acontece dentro do corpo e uma patologia desmascarada. (Ha!)

Séries médicas tampouco são novidade: a soap “General Hospital” já aparecia na televisão norte-americana em 1963. Existem vários sabores de série médica – a correria de “ER”, os dramas pessoais de “Grey’s Anatomy”, a adolescência de “Doogie Howser, MD”, o nonsense de “Scrubs”…

“House” trouxe um protagonista de verdade. Mais do que isso: trouxe um protagonista brilhante e insuportável (mas suportável para você, que só o encontra uma vez por semana). Só que Gregory House, como você já deve ter lido por aí, é Sherlock Holmes. E, como “House” deu certo, desencadeou toda uma geração de especialistas geniais com algum tipo de excentricidade – de Patrick Jane (“The Mentalist”) a Shawn Spencer (“Psych”), passando por Dr. Cal Lightman (“Lie to Me”), Charlie Crews (“Life”) e até Richard Castle (“Castle”). E a dedução lógica sherlockiana está por aí desde o final do século 19…

A mensagem aqui é simples: não existe “refresco” nenhum. O que existem são personagens interessantes (de novo: oi, Sherlock!), boas produções e nosso bom e velho interesse por crime.

“The Big Bang Theory” também joga com um elemento antigo: identificação. Como protagonista, o “nerd” não é mais mero saco de pancadas ou alvo de piadas – ele tem seus momentos de vencedor. O físico se viu na TV e, desta vez, gostou.

(Vale lembrar que Ross Geller PhD não era mais ou menos fracassado que os outros cinco protagonistas de “Friends” – e que sua irmã Monica invejava seus dois filhos e o respeito que ele recebia de seus pais. Ross era muito mais do que o “nerd” que conseguiu a mocinha no final. Dizer que Ross era um “coitado” mostra uma preocupação enorme com seus momentos desajeitados e nenhuma preocupação com as limitações intelectuais de Joey – porque Joey, afinal, era pegador. E o que pode ser mais importante na vida do que ser pegador?)

Deixando Gregory House MD e Sheldon Cooper PhD de lado, não vou tentar entrar nos méritos de “Buffy the Vampire Slayer”. Não vou falar sobre monstros e adolescência, sobre o desenvolvimento de personagens, sobre storytelling que jogava a receita de bolo no lixo, sobre a consolidação da TV como espaço de histórias serializadas (e não limitado a episódios auto-suficientes).

Em vez disso, retorno à citação que abriu este post:

For fantasty is true, of course. It isn’t factual, but it i true. Children know that. Adults know it too, and that is precisely why many of them are afraid of fantasy. They know that its truth challenges, even threatens, all that is false, all that is phony, unnecessary, and trivial in the life they have let themselves be forced into living. They are afraid of dragons, because they are afraid of freedom.

Ursula Le Guin, que escreveu o ensaio, é uma autora de fantasia e ficção científica. Li Le Guin pela primeira vez neste ano – um livro chamado “Os Despossuídos” (original: “The Dispossessed”). A história se passa em dois mundos fictícios – mas, lançado no meio da Guerra Fria, tem uma reflexão política impossível de se ignorar. E tem uma reflexão sobre ser gente que me trouxe uma angústia muito parecida com a que eu sinto quando ouço astrônomos e geofísicos e essa coisa de ser tão ridiculamente pequeno cercado de uma incerteza tão gigante.

É notável que tantas produções culturais de fantasia estejam ligadas ao mesmo público “nerd” – como super-heróis, por exemplo. É claro que em muitos casos existem explicações pseudocientíficas e Sheldon, Leonard, Raj e Howard passariam horas no debate entre os méritos da aranha radioativa e os da aranha geneticamente modificada. Mas não é preciso teorias para desejar Um Anel para Governar.

One Ring to rule them all

Talvez não seja possível (ou desejável) ser astrônomo, físico e geofísico sem ter imaginação. Descobertas surgem no leap of faith, em acreditar em uma coisa que você não pode ver até conseguir provar que ela existe. Afinal, o valor de Galileu se resume apenas a ele estar correto (como a observação e a física provariam) ou também inclui sua capacidade de pensar além do canônico?

7 comentários

  1. Nossa! Preciso tomar mais cuidado com minhas opinioes sobre series de televisão… Vc me arrasou!
    En Passant, eu sou fã da Ursula Le Guin, li todos os livros dela em Portugues (e estou vendendo alguns), os Despossuidos é o meu preferido.
    Dedico algumas paginas a ela no meu livro “O Beijo de Juliana – Quatro fisicos teoricos conversam sobre biologia, ciencias da complexidade, mulheres, crianças, politica, religião e futebol” (me peça uma cópia, se quiser!)

    Agora, sugerir que eu não tenha imaginação… isso doeu!

    Osame

  2. Não tem perfil neste blog?

  3. […] fatos mais objetivos. Por outro lado, tive que dar o braço a torcer no puxão de orelha que a Baleia Literal me fêz, ao relembrar que a ficção imaginária, mesmo se recheada de chavões new age, tem […]

  4. […] (E, afinal de contas, a percepção visual de quantidades não desaparece com a idade – o que desaparece é a nossa capacidade de ver dragões e unicórnios.) […]

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