07

jan

Por favor, venham me criticar nesse domingo horrível que eu tive

Quando minha mãe tinha uns 10 anos, começou a estudar para a prova de seleção para o “ginásio” (ou sei lá qual era o nome daqueles anos entre as antigas quinta e oitava séries) porque uma prima dela estava fazendo isso. Aí chegou no dia da prova, minha mãe foi até a escola e descobriu que precisava ter feito inscrição.

Sim, pessoa superior, parece ser uma coisa óbvia. Agora imagina uma criança minúscula (minha mãe é meio baixinha) de 10 anos chegando para fazer a prova, a pessoa adulta explicando que precisava ter feito inscrição e a criança minúscula abrindo a boca triste e fazendo “Ah…”

Minha mãe já me contou vários momentos deprês  da infância dela (nota: minha mãe nega que a infância dela tenha sido triste), mas acho que essa foi a mais heartbreaking.

Felizmente, não existia a internet naquela época. Ou corria o risco de pessoas superiores resolverem compartilhar sua sabedoria e acusar a criança de 10 anos de ser burra e incompetente e – sabe o que mais? não passaria na prova mesmo!

Tudo bem que o menino tem 17 anos – e não 10. Mas o menino de 17 anos veio de ônibus do Rio de Janeiro fazer as provas da segunda fase da Fuvest e não conseguiu chegar a tempo porque foi para o local errado (neste lugar pequeno e simples chamado São Paulo). Tudo o que ele não precisava fazer para completar esse domingo era ter que se defender nos comentários.

Eu era completamente idiota aos 16/17 anos (e durante toda a década seguinte, vai). Se dependesse só de mim, eu teria esquecido de pagar a inscrição. Eu não saberia qual ônibus pegar. Eu chegaria esbaforida tentando lembrar se tinha caneta na minha bolsa ou se eu só tinha levado chocolate. E sabe o que mais? Eu passei naquela prova. São competências distintas.

Mas se vocês puderem acreditar que eu não sou mais completamente idiota (acho), ofereço um conselho grátis: “nunca fale com repórteres”.

O primeiro motivo nem é uma questão de OMG REPÓRTER DETURPOU TUDO O QUE EU DISSE (disclaimer: pode acontecer), mas uma questão de OMG VOCÊ ESCUTA O QUE VOCÊ FALA? Porque nós falamos essas coisas o tempo todo. Pode pensar, mas por favor não fale em voz alta. Pode até falar em voz alta, mas não deixe isso ser amplificado por um jornal. Existem coisas que cabem em um blog sem leitores, mas que não devem nunca chegar à capa do UOL.

Sim, queridos, existe consolo na falta de notoriedade.

O segundo motivo é uma questão de OMG VOCÊ AO MENOS LEU O QUE ESTÁ ESCRITO? Porque existem comentários na internet. E você não quer que comentem sobre você.

Existe mesmo consolo na falta de notoriedade.

(aproveitando: isto aqui não tirou as palavras da minha boca — até porque processo de escolher faculdade no Brasil é diferente e tal –, mas pode ser interessante caso alguém esteja precisando de “perspectiva”: How to choose a college)

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