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fev

Confissão #38: eu quero meu banheiro de volta (e outras histórias sobre morar com meu avô)

Aviso: este post tem mais honestidade do que açúcar. Se você tiver algum grau de parentesco comigo, recomendo/peço que não continue lendo. Estou contando com a inexistência de visitantes e com o tl;dr para escapar ilesa.

Meu avô veio morar com a gente no mês passado. Ele tem 94 anos e, segundo o médico, “parkinsonismo”. Confesso que falo “Parkinson” para as pessoas que perguntam, porque não vou ficar explicando, não sei em que grau seria e pra falar a verdade não tenho certeza se o médico não estava só falando com jeitinho.

É diferente de quando uma pessoa é diagnosticada ainda jovem com uma síndrome degenerativa que atrapalha toda a sua mobilidade e controle muscular. Continua sendo um tapa, e a gente se preocupa com o quanto isso pode afetar a capacidade do meu avô engolir (e eu realmente não sei se isso pode chegar a afetar a respiração), mas de certa forma a gente meio que espera que uma pessoa de 94 anos e com os ossos do pé entortados por uma joanete monstro não saia por aí batendo perna de boa.

Acho que o primeiro sinal que a gente deveria ter visto sobre a condição dele foi quando ele caiu pela primeira vez, no final de março do ano passado. Mas, como eu disse, a gente meio que espera e acha normal que ele não seja mais tão forte e não tenha mais tanto equilíbrio.

Com o diagnóstico e a aceitação de que ele não deveria mais ficar sozinho (depois de ter caído algumas vezes), acho que tirar meu avô da casa dele foi bem menos traumático do que seria se ele achasse que continua forte e independente.

Assim, menos traumático para ele. Porque eu ainda estou meio em pânico.

Já fazia pelo menos uns dois anos que a gente começou a pensar que ele acabaria morando aqui em casa. Ele sempre foi meio na dele e não reclama muito, mas ele já passava dos 90 anos e vivia sozinho desde que minha avó morreu, pouco antes da páscoa de 2001.

Desde 2001, minha mãe cuidava dele levando comida e lavando roupas e comprando o que ele precisasse e cuidando para a casa estar sempre em ordem e levando para o barbeiro ou para a podóloga ou para o médico. Meu tio e minha tia que moram por aqui também passavam lá o tempo todo, dividindo os dias com a minha mãe, mas minha casa sempre foi a opção mais natural porque não temos escadas e meus pais têm mais tempo.

Mas eu sempre tive essa negação de que isso aconteceria muito cedo, porque… sei lá, ele parecia bem (para alguém de 94 anos) e claro que daria tempo de sair de casa antes disso.

Meu avô tem 94 anos e chegou meio de surpresa para dormir na minha casa, em uma noite de sexta-feira. Foi arrumar correndo o outro quarto, umas duas semanas antes do plano original, naquelas de a-gente-pensa-sobre-isso-amanhã.

Aconteceu um mini-conselho de tios aqui em casa no dia seguinte, para organizar a situação. Vieram algumas coisas dele (incluindo móveis), saiu uma cama extra do quarto, foi instalado o corrimão no banheiro.

Nos primeiros dias, ele ainda estava mais fraco e inseguro (ele está melhor agora, porque está comendo melhor e sendo lembrado de beber líquidos e tomando o remédio). Tinha dificuldades para se levantar e andar de um cômodo para o outro. A gente tinha uma campainha em casa, mas ela foi emprestada para alguém e nunca mais voltou, então meu pai improvisou: enchou uma lata com parafusos, fechou e prendeu a tampa com fita adesiva. É basicamente um chocalho escandaloso – que meu avô usou à exaustão naqueles primeiros dias para chamar quem estivesse por perto.

Foi quando a gente descobriu que ele não ficava nessas de acordado/cochilando só durante o dia – ele também fica assim durante a noite. A noite toda.

Foi quando a gente descobriu que ele vai ao banheiro mais ou menos a cada 45 minutos (sim, os exames de PSA estão alterados, mas isso vem sendo acompanhado faz tempo pelo médico dele – e ninguém vai colocar um senhor nonagenário em um tratamento contra um tumor, né). Ele aceitou a fralda nos primeiros dias, mas continuou a ir ao banheiro o tempo todo mesmo de fralda (é daquelas que dá pra tirar, tipo a versão geriátrica da fralda de potty-training).

É enlouquecedor.

Meu avô também assiste canais de esporte o dia todo, todos os dias, e ainda por cima prefere coisas horríveis como showbol e vôlei de praia a jogos legítimos de futebol (com times que ele não conhece).

É enlouquecedor.

E de tempos em tempos ele abandona a TV do quarto (ligada no canal de esportes) e vai para a sala ver TV (no canal de esportes) e depois se cansa e resolve que quer deitar na cama às oito da noite, até perceber que ainda são oito e quinze da noite e ele quer na verdade assistir TV (no canal de esportes) sentado na poltrona do quarto. E na poltrona da sala. Daqui a cinco minutos.

É enlouquecedor.

A cada vez que ele troca de poltrona, alguém precisa ver se ele não esqueceu a caneta ou o pedaço de papel em que ele estava anotando o placar, ou o paninho/toalhinha que ele carrega, ou o guardanapo que ele estava segurando por algum motivo, ou o pedaço de papel que ele colocou na boca porque estava babando.

É enlouquecedor.

A piora na mobilidade (idade, joanete, Parkinson) meio que virou desculpa para ele ignorar hábitos básicos de higiene. Se você quer que ele lave as mãos depois de ir ao banheiro (e ele vai ao banheiro o dia todo), precisa entrar no banheiro assim que ouvir a descarga, abrir a torneira e jogar o sabonete líquido na mão dele. Mas é provável que ele tenha ido sozinho na outra vez, e aí na vez seguinte ele não consegue se levantar sozinho e chama você para dar aquela forcinha segurando em você com aquela mão que ele não lava faz umas cinco excursões ao banheiro. E aí eu vou correndo ao outro banheiro na primeira oportunidade para lavar as mãos e os braços com sabonete, meio que agradecendo que ele é surdo e não deve estar ouvindo o quanto você abriu a torneira para conseguir mais e mais água.

É enlouquecedor.

Meu avô também odeia coisas como escovar os dentes (ele aceita mais o enxaguante bucal) e tomar banho. A gente está com a cadeira de banho dentro do box, e minha mãe está insistindo com ele para conseguir uns dois ou três banhos por semana. Se ele não aceita, vai aquela limpeza básica com toalhas molhadas e depois toalhas secas mesmo. Vocês não imaginam o cheiro da poltrona que veio da casa dele (e que está sendo reformada – espero que coloquem fogo na espuma e no tecido que estavam nela).

É enlouquecedor.

Quando meu avô veio morar aqui em casa, alguém me disse que isso faria de mim uma pessoa melhor, mas isso não é verdade. Eu reparo se ele deixa o dia passar sem tomar banho – o cheiro, gente – e odeio ver a sala atravancada com aquela poltrona enorme, e acabo assistindo transmissões de tênis na TV da outra sala (que é a pior das TVs disponíveis!) porque ele está vendo VT de vôlei, e principalmente me incomodo imensamente de ter perdido o meu banheiro.

O meu banheiro.

E ainda por cima eu perdi o meu banheiro para uma pessoa que não gosta de tomar banho, não quer escovar os dentes e não faz uso da torneira da pia.

Isso significa que eu estou tomando banho no banheiro dos meus pais (porque o meu ex-box tem uma cadeira de banho lá dentro, e porque eu não posso restringir o acesso ao banheiro por mais de 20 segundos). Isso significa que minha toalha fica lá fora, no varal (antes eu tinha todos os cabides para usar e esticar!), e em dias como hoje ela some e eu preciso pegar outra. Isso significa que hoje eu ia usar o meu esfoliante corporal (que está no meu antigo banheiro porque ele não cabe na prateleira do box dos meus pais, que já tem as coisas deles) mas acabei desistindo da ideia porque ele estava no banheiro.

Isso significa que eu peguei todos os meus produtos de higiene oral e cuidados faciais e guardei tudo em uma necessaire que fica no meu quarto. Isso significa que outro dia já passava da meia-noite e eu tive que interromper a rotina de higiene oral e cuidados faciais (já tentei escrever sobre isso, mas acho meio blog-de-esmalte) TRÊS vezes porque meu avô chegava me expulsando do banheiro (o banheiro dos meus pais fica no quarto deles, não dá para ficar invadindo tarde da noite). Tudo bem que minha rotina não é muito curta, mas foram TRÊS vezes em tipo vinte minutos. Tipo “segura aí que eu ainda preciso enxaguar o rosto” (mas ele é surdo, não adiantaria falar).

É enlouquecedor.

E tem ainda a noção de que eu nunca mais poderei passar alguns minutos sozinha aqui em casa, e eu sempre gostei de ter alguns minutos completamente sozinha de vez em quando. Mas agora é impossível.

A gente está tentando manter uma vida mais normal. Dá para sair para almoçar, por exemplo. É rápido, e meu avô usa um serviço para chamar ajuda se acontecer qualquer coisa.

Mas tem coisa que não dá para fazer (tipo: ficar sozinha). Ano passado, meus pais conseguiram viajar durante umas duas semanas, com meu tio cuidando do meu avô (que ainda morava sozinho). Agora, seria necessário mudar meu avô para a casa de outra pessoa durante o período, e parece super sacanagem fazer isso com a pessoa de 94 anos.

Um tempo atrás, antes daquela sexta-feira, minha irmã estava pressionando minha mãe a ficar uns dias visitando meu sobrinho, digo, meu irmão, e ela disse para a gente parar com isso porque ela precisava cuidar do meu avô e não queria pensar nisso para não se ressentir.

Tem coisas tipo o meu pai, se acomodando no outro sofá porque meu avô está sentado na poltrona que era dele (enquanto a poltrona nova do meu avô está ali do lado, vazia!). E meu pai realmente conversando comigo e dizendo que, quando ele precisar de ajuda, é para procurar uma casa de repouso mesmo (não se preocupe, pai, a gente está na mesma página).

E meu avô é super bonzinho (para uma pessoa de 94 anos), e super lúcido, e o pé dele está tão entortado…

Só que tudo mudou.

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