21

jun

Sem mais perguntas

Aconteceu: outro dia perguntaram se eu poderia ser personagem em uma matéria. Não vou entrar no assunto da matéria porque acho que ela ainda não saiu. Só vou dizer que eu segui o meu velho conselho e recusei. Claro.

“Ué, mas você não faz assessoria aí no seu trabalho?” Faço. Por conta disso, eu indico fontes/especialistas – que são diferentes de personagens. E, ainda assim, eu nem acho que ser fonte é uma coisa boa (mas ninguém pediu minha opinião).

Existem situações em que você precisa atender jornalistas. Quando é uma questão de transparência de administração pública, por exemplo. Existem situações em que você quer ser entrevistado por jornalistas. Você está… lançando um livro. Você está… fazendo campanha por alguma coisa. Você está… precisando aparecer, por qualquer motivo (e aí os jornalistas fogem e evitam você até o fim do mundo).

Na maior parte das vezes, especialistas estão fazendo o papel de consultor gratuito. Mas aí você me diz que é pelo bem público (quem diz isso é jornalista que precisa da fonte para entregar matéria), e o especialista provavelmente faz isso pra ter bom karma. Se você tem algum conhecimento e um título atestando isso, seja boa gente e compartilhe esse conhecimento em duas frases com pessoas que vão ler isso errado e escrever um comentário cretino na internet.

Mas vamos voltar para os personagens. Personagens servem para humanizar uma reportagem sobre qualquer coisa. Vamos falar sobre a dificuldade de se conseguir remédios nos postos de distribuição – e vamos mostrar isso falando com aquela senhora que precisa do remédio e já voltou do postinho de mãos abanando umas quatro ou cinco vezes. Vamos falar sobre a falta de troco no comércio – e alguém aí conhece aquele vizinho que guarda moedinhas em potes enormes de maionese até conseguir juntar o suficiente pra comprar uma geladeira?

Nas raras ocasiões em que eu tentei ser repórter, encontrar e falar com personagem era a parte mais desagradável de todo o processo. Já pedi ajuda para amigos, já telefonei em lojas pedindo para me indicarem clientes, já fiz cadastro em fóruns de internet para conversar com qualquer um. Tive que convencer gente a tirar foto.

E mesmo sabendo de toda essa chateação, eu recusei. Claro.

Minha irmã aceitou, uma vez. Era uma matéria alegrinha sobre mães que fazem a comida preferida dos filhos quando eles visitam. Minha mãe fez bolinho frito de carne e mousse de chocolate. A sobremesa preferida da minha irmã, que eu saiba, é arroz doce – mas minha mãe achou que a mousse nas taças sairia mais bonita nas fotos (tudo bem, minha irmã também adora a mousse).

Não aconteceu nada de errado na experiência da minha irmã. E não, eu não acho que o repórter está lá para ferrar com você.

Já ouvi isso de muita gente que descobria que eu me formei em jornalismo – o clássico “Uma vez eu respondi uma pergunta pra um repórter e ele escreveu uma coisa que eu não disse”. Acho igualmente provável que a pessoa tenha falado uma coisa sem perceber. Uma hora você está fazendo as unhas, na outra está dizendo que “I’m not blaming the girl, but…”.

Nestes últimos dias, tenho ouvido tanta gente falando coisas que entrariam pra “Grande Galeria Gente Diferenciada das Declarações para Repórteres“, e não consigo deixar de pensar em qual o tamanho do pé que eu enfiaria dentro da minha boca. Ou que sairia da minha boca.

Ser personagem de reportagem é atuar em benefício do repórter. Bem comum? Só se você considerar comentários da internet como bem comum.

Felizmente, ainda tem gente que sempre quis sair no jornal.

Eu já tenho um blog.

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