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jul

Todo esse texto não cabe na capa

Meus pais sempre contam que, quando meu irmão era pequeno, viu imagens do Al Capone na TV e disse:

Mas… ele parece… um homem!

Como eu disse, meu irmão era pequeno. Ele assistia “He-Man” e “Caverna do Dragão” e “Jaspion” ou sei lá o que passava na TV naquele ano. Um criminoso, um bandido, um vilão – eles são monstruosos como um Esqueleto, um Vingador, um Satan Goss. Eles não são “um homem”.

Só que eles são.

Lembrei dessa história nesta semana por motivos óbvios de: capa da Rolling Stone. E eu fui super responsável e li a matéria inteira da Rolling Stone antes de opinar sobre a capa. E ninguém me perguntou, mas eu achei que a foto da capa era a foto pra capa. E que a matéria (que eu espero que tenha sido fact-checked até o infinito) era a matéria pra capa.

(Já o texto da chamada é horrível – ainda não teve confissão ou julgamento, e não sei como o jurídico aprovou “The bomber” . Imagino os powers-that-be da Rolling Stone colocando “bomber” e “monster” na capa pra tentar minimizar a reação que eles já sabiam que vinha com a foto.)

Talvez eu esteja sendo insensível por não ser americana, não ser de Boston, não conhecer ninguém. Ainda tenho minha carteirinha de gente? Tenho. Ufa.

Talvez eu esteja me importando demais com #jornalismo, mesmo não trabalhando mais com isso. Ainda tenho minha carteira de trabalho com MTb? Tenho. Bah, nem me serve pra muita coisa. Mas vamos fingir que ele serve para eu analisar algumas das reações e sugestões de quem odiou a capa:

  1. “Não vamos vender essa revista em nossas lojas.”
    Tudo bem, você tem o direito de não vender o que você não quiser vender na sua loja. Quem coloca na prateleira conteúdos que podem ser prejudiciais aos leitores sem capacidade de discernimento?
  2. “A capa da Rolling Stone é para artistas!”
    Mentira. Pois é.
  3. “A capa não deveria ser sobre um terrorista.”
    Sim, é tão errado quando revistas fazem jornalismo! Pois é. Eu sei que às vezes você se confunde e às vezes eles se confundem, mas a Rolling Stone faz #jornalismo! Sério! E premiado!
  4. “A capa deveria ser sobre as vítimas.”
    Você leu a matéria?
  5. “Então a matéria deveria ser sobre as vítimas!”
    Você errou o verbo: “poderia”. Poderiam fazer. Também podem fazer sobre o Tsarnaev. Ter a possibilidade e o direito de contar uma história é tão bom!
  6. “Deveriam ter usado uma caricatura, e não a selfie!”
    Ah, claro. Tudo pode ser resolvido se os Tsarnaev tiverem aquela cara de terrorista ditada pelo senso comum.
  7. “A capa não deveria ter aquela selfie. Deveria ter essa foto real do momento da prisão.”
    Essas em que ele está fragilizado, vitimizado e praticamente martirizado? Essa foto até dava uma capa – mas não pra matéria da RS.
  8. “A capa da Rolling Stone não deveria parecer uma capa da Rolling Stone!”
    Tem razão. Deveria parecer uma capa de trabalho de escola. O importante é que os leitores continuem incentivados a não entenderem o que é uma capa de revista.
  9. “Vocês colocaram o Tsarnaev na capa da RS e agora os adolescentes cometerão crimes para aparecer lá!”
    Tem uma coisa muito errada com seus adolescentes se a grande ambição da vida deles é sair na capa de uma revista com uma matéria dizendo que você é um monstro terrorista. Aliás, tem uma coisa muito errada com seus adolescentes se a ambição da vida deles é sair na capa de uma revista.
  10. “Mas… ele parece… um rockstar!”
    Ele parece um rockstar. Ele parece um garoto normal. Esse é ponto. Você leu a matéria?

Meu irmão era criança. Qual é a sua desculpa?

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