03

set

25/30

Não é que eu tenha problemas com o meu trabalho — ainda que de vez em quando minha mesa pareça um SAC. Meu problema seria com qualquer trabalho: aquela lembrança de todas as coisas legais que você poderia estar fazendo naquele instante se não tivesse uma fatura de cartão de crédito e uma parcela do financiamento pra pagar. Ah, sim, e se não precisasse comer. De vez em quando. Só um pouquinho.

Eu poderia… assistir cinco sets de Hewitt x Youzhny ao vivo. Voltar a estudar irlandês ou sueco ou qualquer idioma que eu nunca vá usar, mas e daí. Ler. Dar um gás no doutorado. Rever “Buffy” inteira. Achar que eu consigo escrever um livro. Perseguir a Mia. Dar conta dos meus feeds. Dormir!

O quê? Você acha tudo isso besteira e desperdício de tempo? Sem problemas, pode substituir pelo que você quiser fazer. Cada um com a sua lista.

Tem gente que acha tudo isso besteira e não consegue fazer a própria lista porque acha impossível preencher um dia inteiro, todos os dias da semana, todas as semanas do ano se não existir um trabalho te ocupando 40+ horas na semana. Mas garanto que eu não sentia nenhum tédio quando estava fazendo o mestrado com bolsa Capes.

O quê? Você acha que mestrado era a ocupação principal? Tecnicamente, sim. Mas não eram 8 horas por dia. E meu doutorado foi uma das coisas que eu queria colocar no meu tempo livre fictício, lembra?

Mas vamos voltar ao trabalho. Meu problema não é com ele. Meu problema não é com o SAC. Não é com o telefone que toca, o e-mail que chega quando eu já estou em casa, o curso de gestão pública que eu preciso fazer, a bagunça na minha mesa e tudo o que ainda não está pronto.

Meu problema é só com a falta de empo para todas as outras coisas.

Aí, de vez em quando, vem aquele problema com o-que-é-isso-que-eu-estou-fazendo. Qual-é-a-minha-contribuição-para-o-mundo. Será-que-isso-é-tudo.

E aí você junta isso com estar-velha. Porque, até alguns anos atrás, ainda dava para fingir que eu tinha tempo. Que dava para mudar de ideia e descobrir alguma coisa que fosse responder todas as perguntas.

Eu não descobri nada não. Nem mudei a pergunta. E acho que não tenho mais tempo. Diana Nyad pode ter realizado o feito dela aos 64, mas já era um objetivo de várias décadas atrás.

Às vezes meu trabalho é um SAC. Às vezes eu imagino se não poderia ser mais, já que não dá para ser nada. Às vezes eu acho que ninguém tem propósito mesmo e nada disso importa.

Não sei se quero calcular a idade que a Nyad tinha quando decidiu o que queria fazer.

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