06

set

28/30

Apesar dessa minha horrível idade avançada, eu não fico pensando na morte não. Dizem que você só começa a pensar nisso quando vira a (ahem) “próxima da fila”. Talvez os 95 anos do meu avô deem essa impressão de que ninguém vá morrer nunca.

Mas os 95 anos do meu avô me fazem pensar sobre ficar velha. Assim, realmente velha. Sim, mais do que eu.

Fico incomodada de pensar no quanto você perde a dignidade. Ficar dependente para tudo, perder os dentes, não conseguir tomar banho sozinha. Sentar é difícil, levantar é difícil, andar é uma provação. O funcionamento do seu intestino vira conversa dos outros — mais uma daquelas coisas que aproximam senhores idosos e bebês pequenos, ao lado da comida pastosa e da impossibilidade de dormir e acordar nos mesmos horários que os demais seres humanos.

Então talvez seja melhor pensar um pouco na morte.

É estranho porque, mesmo quando eu me preocupo (e me deprimo) com aquela questão de (oh) “realizações”, nem é por causa de legado. Sabe, por que eu vou me importar com o que outras pessoas pensam depois que eu morri? Morreu, BAM!, acabou. Eu me deprimo por causa do que eu penso sobre mim mesma, e eu só posso pensar sobre mim mesma enquanto 1) atividade cerebral existir e 2) eu não estiver completamente senil.

Quando eu me preocupo com morte, é porque eu quero analgésicos, e não ressuscitação. Eu quero não traumatizar pessoas inocentes. Eu não quero ter menos dignidade e respeito do que um animal de estimação.

E eu não quero velório. Odeio velório em que as pessoas viram a noite tomando café velho naquela cadeira horrível em volta de um corpo. Morreu, BAM!, acabou. Não quero enterro, porque acho cemitérios terríveis do ponto de vista de habitação e saúde pública. Queria doar o corpo para alunos desrespeitarem nas aulas de anatomia, mas minha mãe e minha irmã não aceitaram bem a ideia (argumento delas: elas fizeram aula de anatomia e sabem que é péssimo; argumento meu: elas precisaram de peças para as aulas de anatomia).

Ah, sim, queria uma festinha. Com comida. E sobremesas. E de preferência gente fazendo stand-up infame sobre aquela vez que eu entrei em pânico porque ia fazer 30 anos ou qualquer outra coisa idiota que eu já tenha feito/pretendo fazer até a ocasião (mas, por favor, sem powerpoint de fotos com música sentimental).

Mas meu avô tem 95 anos. Eu não vou morrer nunca.

Deixe um comentário