18

set

Diga coisas bonitas para mim

Alguns posts atrás, eu comentei que

todos aqueles shows que eu queria ver quando tinha 16 anos estão acontecendo só agora.

Isso é realmente ótimo, porque agora eu tenho emprego e posso pagar a fatura do cartão de crédito, e consigo chegar ao local do show (ok, geralmente tem companhia e às vezes tem carona) e tenho onde ficar depois. Mesmo assim, vamos combinar que show é um grande transtorno.

Ontem eu estava com sono, um pouco com dor de cabeça, completamente puta e não lá muito animada para pegar busp com garoa. Ainda que o Espaço das Américas fique do lado do metrô, tenha seguranças dando bronca em gente mala que quer assistir o show em cima dos ombros do namorado e seja o lugar mais limpo do gênero (sério, tem gente da limpeza circulando no meio do show para recolher copos largados ou sei lá), você continua tendo que lidar com calor, mar de celulares tentando tirar foto do palco e o azar de ter gente alta na sua frente (quando você é baixinha, descobre que elas estão por toda a parte!).

Talvez eu esteja velha demais para essas coisas.

Mas eu tinha acabado de ler um texto sobre assistir o US Open na arena x assistir o US Open no conforto do seu sofá, e é mais ou menos isto:

Close that micro-economics book and open Durkheim. Think about the match as ritual. It’s not just about Nadal and Djokovic whacking a fuzzy yellow ball back and forth for a couple of hours. A ritual includes everyone. If you’re there, you are part of that group. You are one with the with the people in the stadium and with the charismatic figures in center court.

Vale pra tênis, vale pra futebol, vale praquele show com meninas gritando histericamente no seu ouvido. Eu posso não querer ser parte permanente de um grupo com gente que vai pra show com sandália de salto, gente rivalizando o celular novo, gente soltando a classe média pra cima do segurança, gente que vomita antes mesmo que a banda suba ao palco. Mas é um ritual de cantar So sad so lonely de um jeito que você só deveria fazer na privacidade do seu quarto, mas que você só faz no meio de estranhos e com a banda tocando na sua frente.

Como em qualquer ritual, a banda segue alguns procedimentos padronizados de declarações de amor e repetições do nome do país e/ou cidade do show. Como tantas outras antes, o Matchbox Twenty também se desculpa por demorar a minha adolescência inteira antes de dar as caras por aqui. Seria tudo muito bonito (não, seria a mesma coisa de sempre) até que Rob Thomas nos convida a tratá-los como “the house band” da nossa festa.

Espera. Espera. Rob, em quantos outros lugares você já apareceu com esse mesmo papo furado?

Eu sei. Eu sei. Ritual. “Eu te amo, São Paulo”. A mesma coisa de sempre.

É como quando meu guia da Ilha da Páscoa fazia os mesmos comentários com as mesmíssimas piadas em espanhol e em inglês. Mais um lembrete de que não existe espontaneidade no mundo. E de que não somos o tal floco de neve.

Existe um script, ok?

O Matchbox Twenty encerra a noite naquele encore ensaiado que termina com um grande sucesso que não poderia faltar do setlist. Push. Cantamos juntos e felizes sobre um relacionamento horrível. Rob Thomas diz que quer (e vai) nos dar como garantidos.

Foi um bom show.

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