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nov

Completando um quebra-cabeças pop

O caso brokebackmountaniano entre Robbie Williams e Gary Barlow era apenas humor de videoclipe, mas o bromance parecia real. “Eu digo que ele é meu capitão; minha esposa diz que ele é meu namorado”, brincou Williams ao chamar Barlow ao palco para uma apresentação da música “Shame”.

O caso ganhou ares de compromisso com o retorno de Robbie Williams ao Take That – não para “one night only at the O2” (nas palavras de Barlow), mas para um álbum e uma turnê vendidos com velocidade recorde no Reino Unido. Mas é difícil pensar em lua de mel depois do documentário “Look Back, Don’t Stare”, que acompanhou o quinteto entre 2009 e 2010, durante as gravações do disco “Progress”.

“Este é o momento perfeito”, diz Robbie Williams na primeira cena. Não era. A hora de vídeo que sobrou na edição de doze meses é tudo menos perfeita. Howard Donald é o mais cético naquele começo – e por que não seria? Afinal, Williams cantarola “The Greatest Day” e em seguida abandona o barco, de novo.

A preocupação com Williams é uma mistura de receio por ele, receio por nós. Porque Williams é uma mistura confusa de sobra de ego e falta de confiança. Ele se confessa alcoólatra e se confessa deprimido, e é também o popstar. What a beast, what a man.

Gary Barlow também tem confissões – admitindo todo o desconforto de se ver fracassando enquanto o ex-companheiro de banda tornava-se cada vez mais popular. Mark Owen aprendeu do jeito mais difícil que vencer um reality-show não é suficiente para salvar sua carreira. Howard e Jason Orange não tiveram a mesma sorte (ou azar): eles praticamente desapareceram enquanto o país cantava “Angels”.

Mas a mágoa caminha nos dois sentidos.

Nos quinze anos em que passou afastado do Take That, Williams fez o possível para se afastar cada vez mais do Take That. “Eu era o mais talentoso”, diz um Robbie mais jovem, carregando um troféu. O Robbie mais maduro confessa: “Eu queria esmagar [Gary], queria esmagar aquela história”.

Williams deixou o Take That em 1995 como o vilão – o jovem cada vez mais inconveniente com suas noitadas e companhias, a saída que desestabilizou o conjunto e fez milhares de fãs chorarem no ano seguinte. Agora Gary Barlow assume uma parte da culpa: “Ele queria ter uma voz, e eu o rejeitei. Eu queria cantar tudo”. Em sua segunda chance, Barlow deixa Williams brilhar em todo o álbum, escrevendo e cantando – mas sob sua liderança. “Progress” é diferente dos dois álbuns que o Take That lançou desde seu retorno (como quarteto); “Progress” é o que “Rudebox” teria sido com a orientação certa.

A culpa sentida por Jason Orange é mais heartbreaking: tentando agradar empresários descontentes, ele mesmo sugeriu a Robbie que fosse embora. Mas Robbie teria ido embora de qualquer jeito.

Porque o descontentamento com o Take That da década de 1990 não era só de Robbie. O Take That foi mais um grupo formado em testes, com peças escolhidas pelos Powers That Be. Expendable soldiers. Just one thing after another.

E não eram apenas os empresários que enxergavam peças substituíveis – o próprio Gary Barlow diz que não tinha preocupações com as outras quatro pessoas que dividiam o palco com ele. “Quando o Robs chegava dizendo que tinha bebido quatro garrafas de vodka na noite anterior e estava acabado, nós apenas falávamos ‘O ensaio começa em dez minutos, fique na sua posição’”.

Anos depois, Barlow conversa com Mark Owen, recém-saído da reabilitação. “Você realmente acha que nunca mais vai beber?”, pergunta. “Não posso”, responde Mark. “Eu não bebo faz dez anos”, interrompe Robbie – meio brincando, meio sendo honesto sobre a necessidade de levar o assunto para ele.

“Progress” não foi o momento de reencontros, de consertar amizades antigas. A impressão que fica é que eles finalmente estão se conhecendo – que Gary, Mark, Howard e Jason só se conheceram cinco anos atrás, quando anunciaram o retorno, e que isso agora acontece com o Robbie. Foi uma terapia pesada que, de algum jeito, gerou um álbum recompensador.

Guardadas as devidas proporções, é como reencontrar amigos de colégio. Esqueça o dinheiro, esqueça a fama. Unidos pela matrícula e distribuição aleatória de classes, cada um assume seu papel e joga com seus interesses. Ter companhia. Ser mais popular. Fazer um trabalho em grupo que vai salvar sua nota de Literatura. Ficar amigo de alguém que tem carro, ou casa de praia, ou irmão mais velho. Depois são anos de tentar se provar sozinho. Entrar na faculdade, arrumar um emprego, comprar um apartamento. E, se vocês derem sorte, um dia vão conseguir conversar como pessoas normais.

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