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jan

A gente gosta de pensar que está tudo bem (mas não está)

O Australian Open acabou e desta vez ficou mais do que a ressaca de sempre. Ficou também este post, que eu venho ensaiando faz uns dias.

Aconteceu que a Eugenie Bouchard venceu seu jogo de QF e se classificou para as semifinais de um Grand Slam. É meio que uma grande coisa pra qualquer jogadora, especialmente uma de 19 anos que estava jogando seu quarto torneio de Grand Slam como profissional, e seu primeiro Australian Open nesse nível. Aí, depois do fim do jogo, aconteceu isto aqui:

Existe uma coisa muito errada nessa pergunta, e eu nem estou falando da resposta belieber da Genie. O ponto é que a Bouchard havia derrotado Ana Ivanovic — uma ex-número 1 do mundo que havia acabado de eliminar a atual número 1 Serena Williams! — para chegar às semifinais do primeiro Australian Open que ela jogava como profissional (sim, estou me repetindo aqui) e alguém achou que seria interessante e relevante perguntar para ela qual seria o encontro romântico dos seus sonhos.

A entrevista na quadra era conduzida pela ex-tenista Samantha Smith, que fez comentários do torneio para o Channel Seven australiano. E eu realmente não consigo entender como uma ex-tenista que atualmente atua como comentarista (continuo me repetindo) conseguiu fazer essa pergunta  – ainda que enviada por um “fã” – e não achar que havia nada de errado.

Mas o problema não é só essa entrevista da Bouchard.

A gente gosta de pensar que tênis não é um esporte sexista porque existe a tal igualdade de premiação. A gente gosta de esquecer que a igualdade de premiação foi uma luta das tenistas (oi, Venus), porque é mais bonito pensar que os powers-that-be tenísticos fizeram tudo da bondade do coração. A gente gosta de fingir que Janko Tipsarevic, Gilles Simon e Sergiy Stakhovsky são vozes pequenas e pouco representativas, porque ter derrotado o Federer em 2013 foi coisa que até o Delbonis conseguiu.

Tem gente que gosta de falar que o Bobby Riggs era um senhor praticamente idoso quando a Billie Jean King o derrotou na tão falada Batalha dos Sexos, mas ninguém se dá o trabalho de pensar em dimorfismo sexual, fisiologia e coisas simples como a média do top 10 da ATP ser mais de 10 cm mais alto e mais de 20 kg mais pesado que a média do top 10 da WTA (e todos eles estão jogarem com a mesma quadra e a mesma rede e as mesmas bolinhas e as mesmas regras). Tem gente que gosta de falar tanta coisa que eu estou me esforçando para terminar este parágrafo sem começar um ensaio, porque eu nem ia falar sobre a questão da igualdade de premiação.

Não me leve a mal. Premiação igual é justa e significa muita coisa para o tênis. Se você olhar a lista mais recentes de atletas mais bem pagos do mundo, vai descobrir que as únicas três mulheres entre os 100 atletas são tenistas. Olhando só a lista feminina de atletas mais bem pagas, sete delas são tenistas.

Só que premiação não é o único indicador de des/igualdade.

Decidiram associar a Genie Bouchard a sonhos românticos porque ela é uma garota. Ambições esportivas? Pfff. Isso só é importante para os garotos em ascensão na ATP.

Decidiram se importar com os sonhos românticos da Genie Bouchard porque ela é bonita. Assim como aquela mesma partida que ela havia acabado de ganhar, contra a Ana Ivanovic, estava sendo comentada mundo afora como “Que confronto bonito!”.

E você pode até me dizer que tenistas aproveitam quando são bonitas – que Sharapova fatura mais do que todo mundo, que Wozniacki e Ivanovic ganham mais do que jogadoras do top 10. Que um rostinho bonito traz popularidade, e que a popularidade traz contratos publicitários mais gordos. Só que até aí os agentes estão fazendo seu trabalho: negociar os melhores contratos possíveis, com todas as armas à disposição. Pode ser a beleza, a nacionalidade, o carisma – alguma coisa associada com a imagem que justifique como os contratos de publicidade do Federer valem três vezes os contratos de publicidade do Nadal, ainda que o ranking não diga a mesma coisa.

Mas vamos voltar para Samantha Smith e todos os comentaristas e locutores da ESPN e jornalistas de todos os sites e jornais e canais que usaram a palavra “musa” para falar de Sharapova ou que suspiraram a cada ponto da Ana Ivanovic contra a Serena Williams. Quando a Marion Bartoli estava prestes a vencer Wimbledon, teve comentarista destacando que ops, ela não é bonita o suficiente. Quando Cibulkova jogou a final do Australian Open, ela foi incansavelmente descrita como “bela” durante o jogo inteiro.

(É igualmente irritante ter que ouvir que Serena Williams saca “como homem” e/ou que algum game ruim seja efeito de qualquer “tensão” entre ela e o técnico/namorado. Às vezes no mesmo jogo.)

O problema é que estamos falando de figuras que ocupam o lugar de responsáveis pela informação. São pessoas que têm mais alcance do que aquele tweet de fã que se derrete para a Ana Ivanovic ou para a Vera Zvonareva ou para o Ernests Gulbis ou OMG TOMMY HAAS COM UM COALA (culpada).

O problema é que esse discurso vindo da cobertura/reportagem esportiva nos meios de comunicação diz que é normal avaliar uma atleta pelo quanto você a acha fisicamente atraente. Que é normal insultar uma ginasta porque ela não atende aos seus ideais de beleza. E que também é normal atacar jornalistas, comentaristas e locutoras porque elas são mulheres. E torcedoras que ousam se importar com esportes.

É muito maior do que tênis, muito maior do que jornalismo esportivo. Pais querem saber se seus filhos são gênios e se suas filhas estão gordas, e vão continuar se perguntando isso até que o discurso mude.

Eugenie Bouchard é bonita. Eugenie Bouchard pode ser romântica. Eugenie Bouchard também é uma tenista profissional do top 20, uma semifinalista do Australian Open, e a primeira canadense a chegar tão longe em um Grand Slam em 30 anos.

Dominika Cibulkova é bonita, e também é tenista profissional do top 20, finalista do Australian Open e primeira eslovaca a jogar uma final de Grand Slam.

Se ninguém precisa usar “a beleza do Cristiano Ronaldo” para promover um jogo do Real Madrid, por que precisamos do “duelo de musas“?

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