28

jan

(Realmente não está)

Ontem, depois de ter escrito o post, fiquei com a sensação de que estava tudo all-over-the-place, então fiz o que qualquer pessoa sem noção na vida faria: forcei pessoa responsável a trocar ideias comigo.

Fui lembrada, por exemplo, que a Halep foi perguntada na coletiva sobre efeitos da cirurgia de redução dos seios que ela fez alguns anos atrás. Falar sobre impacto no tênis até pode ser justo – e ela respondeu que não estava arrependida. Mas aí vem um:

What about outside the tennis?

Sim, vamos falar sobre seios. Seios são interessantes. Especialmente fora das quadras.

Também fui lembrada que a entrevista com a Bouchard também teve entrevistas relevantes, e que entrevistas com alguns dos tenistas também tiveram sua dose “vamos falar da sua vida pessoal”. Nadal, amigo, cadê a Xisca? E quando é que você vai parar de enrolar? Sabe, até o Djokovic está noivo, e você aí…

Essa parte é verdade. Homens, mulheres, crianças – ninguém escapa da nossa fome por fofoca.

Aí me lembrei de uma coisa que um professor de meteorologia me contou. Fizeram um estudo sobre humor na época do furacão Sandy (McGraw, Williams e Warren, 2013). Os resultados diziam que as piadas sobre o Sandy eram consideradas engraçadas algum tempo antes do auge do furacão, sem graça no momento mais crítico da passagem do furacão e depois de um tempo voltaram a ser consideradas engraçadas – até simplesmente perderam a graça, porque passou o momento.

Humor é um jogo de sensibilidades – as do humorista e as do público – e existe um tempo certo em que a piada funciona. Não se faz piada sobre um furacão no momento em que ele está arrasando seu país e matando pessoas.

O meu ponto aqui é o olho do furacão e o timing da coisa. Neste momento, neste contexto – e tantos exemplos caberiam aqui, de Caroline Criado-Perez a Daisy Coleman – não cabem comportamentos e entrevistas que diminuam uma mulher.

Você pode falar da Xisca por um minuto, mas no minuto seguinte as pessoas se lembram do jogo do Nadal, do espírito do Nadal. Para o Nadal, nunca existiu a ameaça de que qualquer coisa relacionada a sua namorada ofuscasse o que ele fizesse torneio. No caso da Bouchard, uma bobeirinha romântica facilmente se sobrepôs à campanha que ela fez. A Cibulkova foi abertamente mais celebrada pela beleza do que pelo tênis.

Claro que falar que uma tenista é bonita não é o mesmo que o assédio e as ameaças contra a Caroline Criado-Perez, para ficar em um exemplo pequeno, mas é tudo parte de uma cultura na relação de gêneros que precisa ser modificada, e não reforçada pela voz da imprensa.

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