29

maio

Registros clínicos

Estava eu aqui tomando meu chá com remédio quando percebi que faz duas semanas que estou com resfriado. Passei a vida inteira ouvindo que eu não ficava doente porque sou ruim, aí chega um resfriado de duas semanas. Estou me alimentando direito, com frutas e verduras cruas, com legumes cozidos, com leite quente com mel, e chega um resfriado de duas semanas. A situação está tão ridícula que eu mudo de remédio porque estou esvaziando todas as caixas que encontro em casa.

O auge da coisa aconteceu na segunda-feira. Vida no ritmo de “Ai meu nariz” do Balão Mágico? Check. Tossindo os pulmões pra fora? Check. Só que na segunda à tarde resolveu dar tudo. Febre. Calor. Frio. Er… calafrios? Dor de cabeça. Enjoo. Minhas mãos ficaram (mais) frias, e tremendo. Minha cara ficou só um pouco pálida, imagina, e as olheiras explodiram de felicidade.

Já que eu não tenho mais dignidade mesmo, deixa eu contar que precisei usar o banheiro do fretado para vomitar antes mesmo de entrar na marginal. Aí consegui dormir (ufa), acordei quando entrou na cidade e fiquei morrendo o itinerário inteiro até finalmente chegar no meu ponto. Desci do fretado e… vomitei. Na rua. Na boca de lobo, para ser mais precisa. Na boca da lobo da esquina em frente ao bar. Nunca vou recuperar minha dignidade depois disso, eu sei. Por alguns minutos eu considerei telefonar para o meu pai porque não sabia se ia conseguir andar as três quadras até minha casa.

Só que eu geralmente me sinto melhor depois que vomito. Eu sei. Pra uma pessoa sem distúrbio alimentar, eu tenho uma enorme experiência com vômito. Mas considere que eu tinha um problema fisiológico quando era criança (ah, o refluxo) e demorei muito tempo para me habituar com viagens. Passei meu primeiro semestre de faculdade tomando plasil todos os dias antes de entrar no fretado, só isso. Durante muito tempo eu tinha um saquinho de emergência dentro da mochila.

Ok, quantos quilômetros eu andei desde que cruzei a fronteira do TMI?

Enfim, vomitei na rua, cheguei em casa morta de fome e resolvi jantar para ver se melhorava. Não se preocupe, agora acaba a parte sobre vomitar. Prometo. Só que eu não melhorei muito não. Talvez seja exagero meu, mas acho que se você está querendo chorar por causa de um resfriado, é melhor procurar o hospital.

Então meu pai me levou para o pronto socorro do convênio, onde o médico escreveu “resfriado comum” na minha ficha, me passou uma injeção de dramin com dipirona e garantiu que eu estava ótima para trabalhar no dia seguinte (ótima eu não estava, mas fui trabalhar daquele jeito mesmo). Mas aí estava eu segurando minha ficha no lugar onde iam me dar a injeção e então eu percebo que lá em cima eles marcam quando foi minha última passagem pelo PS e por qual motivo. E dizia isto aqui:

19/12/2009 – Transtorno psicótico agudo polimorfo, sem sintomas esquizofrênicos

Oi?

Tudo bem, vamos procurar uma descrição?

Transtorno psicótico agudo que comporta alucinações, idéias delirantes ou perturbações das percepções manifestas, mas muito variáveis, mudando de dia para dia ou mesmo de hora para hora. Existe frequentemente uma desordem emocional que se acompanha de sentimentos intensos e transitórios de felicidade ou de êxtase, ou de ansiedade e de irritabilidade. O polimorfismo e a instabilidade são a característica do quadro clínico. As características psicóticas não correspondem aos critérios diagnósticos da esquizofrenia. Estes transtornos tem frequentemente um início repentino, desenvolvendo-se em geral rapidamente no espaço de poucos dias e desaparecendo também em geral rapidamente, sem recidivas. Quando os sintomas persistem, o diagnóstico deve ser modificado pelo de transtorno delirante persistente.

Não estou prometendo que sou perfeitamente normal, mas transtorno psicótico? Agudo? Polimorfo? Ok, pelo menos não tinha sintomas esquizofrênicos. Sabe o que mais? Nunca aconteceu.

Em dezembro de 2009 eu precisei procurar o pronto socorro porque estava com feridas medonhas que depois a gente descobriu que era micose. Coisa que acontece com gente que adota gatinha de abrigo. Não sou perfeitamente normal, mas nada de transtorno psicótico. A não ser que o tratamento de transtorno psicótico agudo polimorfo seja feito com pomada dermatológica.

Como a dignidade já tinha partido naquela boca de lobo, perguntei para o enfermeiro que veio aplicar a injeção: “Moço, minha ficha diz que eu tive transtorno psicótico, mas era só micose. Onde eu preciso conversar para corrigir?”

Ele me indicou a recepção. Voltei para a recepção depois da injeção, e aí “Moça, minha ficha diz que eu tive transtorno psicótico, mas era só micose. Como eu faço para corrigirem isso antes que me internem dizendo que eu tenho esse histórico médico?”

Sabe o que ela respondeu? Que alguém deve ter colocado o código errado, e agora não tem como corrigir. Alguém colocou o código errado, e agora seu crédito está sujo e você é procurada pela justiça.

Bom, eu estava com o pior resfriado comum deste século e uma injeção de dramin pronta pra me dar sono a qualquer momento, então fui pra casa. Agora a minha mãe está preocupadíssima — de novo: seu crédito está sujo e você é procurada pela justiça — e insiste que eu volte pra falar com alguém do convênio quando estiver de férias. Ano que vem. Se tiver me recuperado desse resfriado comum até lá.

Então em algum momento dos próximos meses eu devo voltar ao pronto socorro para ver essa questão. Talvez eles me digam de novo que não podem fazer nada. Talvez eu fique alterada porque eles não podem fazer nada. Talvez eu cause um pouco. Talvez eles observem minha reação, olhem para o meu histórico médico e me internem por problemas psiquiátricos.

Se isso acontecer, quero deixar registrado aqui: era só uma micose.

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