27

jul

O dia em que eu quase enxerguei

Ano passado a Naila me deu uma quantidade assustadora de maquiagem. Acho que eu até tentei disfarçar a cara (lavada) de interrogação, mas eventualmente eu perguntei o motivo daquilo e ela me respondeu: porque maquiagem é pra ser divertido.

Uns dias depois, estava meio à toa em casa e sentei com o delineador. Roxo. Não, eu não tinha bebido. Sentei com o delineador, olhei para o espelho e até hoje eu não sei decidir o que tremia mais – minha mão ou minha pálpebra. Não, eu não tinha bebido.

Fora a óbvia falta de familiaridade com o objeto, tem uma coisa importante aqui: eu tenho aflição enorme envolvendo o olho. Nível passo vergonha para pingar colírio. Nível acho que vou ficar cega em algum momento. E nunca mais vou conseguir comer, porque não consigo comer sem olhar bem o que eu estou comendo.

Mas acho que essa aflição é justa. Tenho miopia monstro desde que era pequena. Tenho um astigmatismo igualmente monstro. Tenho um pouco de fotofobia. Tenho blefarite. Tenho provavelmente uma cicatriz que sobrou em uma das crises de blefarite, antes que um dos oftalmologistas decidisse o que era aquilo. Conheci todos os oftalmologistas da clínica porque ia pro atendimento encaixado para urgências por causa das crises de blefarite. Tive que fazer microcirurgia para remover terçol.

Resumindo: meus olhos são terríveis, mas são meus e eu não quero nada ameaçador chegando perto deles.

Mas um dos inconvenientes de não enxergar um palmo à frente do nariz e ter fotofobia é que você começa a ter que fazer rituais desagradáveis de tira-óculos-de-grau/coloca-óculos-de-sol-com-grau/tira-óculos-de-sol-com-grau/etc. Sinto uma inveja imensa de qualquer ser humano que entra no ambiente fechado e transforma os óculos de sol em uma tiara de cabelo.

Não, não sinto inveja imensa do ser humano que empurra o óculos de sol pra testa. Acho isso horrível. Não faça isso.

Mas enfim. Quase trinta e dois anos, sei lá quantos deles em modo quatro-olhos e resolvi experimentar lentes de contato (porque tem uma viagem por aí e seria super conveniente).

Por conta do grau monstro de astigmatismo, não tem lente descartável que dê jeito. Tem lente mais cara que eu posso encomendar, mas eu não quero essa não. Eu quero tirar da embalagem e colocar nos olhos, e tirar dos olhos e jogar no lixo, e nunca nunca nunca ficar cega por conta de uma lente que eu guardei errado. Ok?

A pessoa da clínica foi muito atenciosa e simpática e paciente. No dia em que fui lá para buscar minhas lentes descartáveis de teste, ela explicou como colocar. E colocou as lentes nos meus olhos. Ainda estou passada que deixei dedos alheios perto dos meus olhos. Mas pelo menos eram dedos alheios profissionais.

Deixa eu falar: foi a coisa mais estranha. Não a parte sobre os dedos alheios nos meus olhos (que, ugh, também é uma coisa estranha), mas conseguir olhar para o mundo sem os óculos. Enfim. Demorei só uma infinidade de tentativas até conseguir tirar aquilo. Ugh, com meus dedos avançando no território sagrado dos meus olhos.

Amigos, vocês precisam me ver tentando tirar um cílio de dentro dos meus olhos. É uma cena lastimável.

O teste mesmo das lentes foi no dia seguinte. Demorei só tipo meia hora até conseguir colocar, aí fui almoçar com meus pais. Em termos dramáticos, foi o equivalente a sair de casa deixando seu escudo. Sou dramática, me deixa.

Na parte prática da coisa, não resolve minha vida porque astigmatismo monstro continua lá, mas eu consigo andar na rua sem tropeçar em nada. Sem ser atropelada. Demorando um pouco mais para focar o que eu estava vendo.

Na parte louca da coisa, tive uma dificuldade enorme para olhar para os rostos/olhos das outras pessoas. Lentes de contato me deixam autista. Ou óculos corrigem meu autismo.

Passei umas sete horas com as lentes, para ver se o esforço por conta do astigmatismo daria dor de cabeça (não deu). Realizei meu sonho (?) de tomar banho com nitidez. Aí passei 25 minutos até conseguir tirar. Com alguns intervalos para rir alto sozinha da própria incompetência.

Foi tipo uma versão duplicada do dia em que eu experimentei o cup pela primeira vez e achei que ia precisar ir para o pronto-socorro pedir ajuda para retirar. #tmi

Por outro lado, acredito agora que a lente realmente tem vontade de continuar dentro do seu olho e não vai sair passear sozinha exceto em casos extremos. Também confio muito no trabalho de proteção executado pelas minhas pálpebras, que reagem muito bem a dedos intrusos.

Mas ainda não sei se meu nariz consegue se adaptar, mesmo que em dias selecionados e escassos e espalhados.

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