A baleia

Nasci em 1983, com a sorte de ter um irmão e uma irmã mais velhos. Lembro de basicamente nada daqueles primeiros anos (e, sim, existem pessoas com memórias melhores). Acho que minha memória só começou quando eu aprendi a ler e a escrever (o que foi um pouco mais cedo do que a média, mas nada muito incrível).

Mesmo depois disso, fiz poucas escolhas. Não que eu não tivesse escolhas, mas eu realmente não tomei nenhuma decisão importante durante muito tempo. E acho difícil contar sobre momentos sem escolha. Acorde, escove os dentes, vá pra escola, tire boas notas, tente não se isolar demais.

Sem prática, fiz a primeira escolha aos 16 e preenchi o código de “Jornalismo” no formulário da Fuvest. Comecei minha jornada ecana aos 17: acorde, escove os dentes, vá pra escola. As notas não eram mais tão boas, mas até que eu fiz amigos.

Terminei a faculdade em 2005 e me arrumaram um trabalho modelo home-office em seguida. Não diria que começar tenha sido uma escolha, mas continuar foi.

Quando o trabalho começou a frustrar mais e pagar menos, veio o mestrado para aprofundar meu relacionamento de amor e ódio com jornalismo. Quando o trabalho acabou, veio a bolsa.

Perto de terminar o mestrado, passei em um concurso. Mesma universidade, outra unidade, um relacionamento menos passional. Não diria que eu escolhi trabalhar no IAG, mas eu escolhi não trabalhar na redação.

Não que eu tenha desprezado milhares de convites incríveis – eu simplesmente não quis procurar. Depois de alguns trabalhos freelance agenciados caridosamente por pessoas que queriam me convencer a dar mais uma chance à reportagem, ficou claro que ela não funcionava para mim.

E já faz alguns anos que eu decidi que o mundo já é infeliz demais sem fazer esforço. Então eu escolhi não me esforçar para ser infeliz.