A vontade dos outros

Estava eu em uma conversa sobre uma não-adesão à formatura. O motivo: “os amigos não vão participar”. O impasse: a família queria participar. E quem tem o poder de decisão aqui – o ser humano que vai terminar a faculdade ou o ser humano que pagou as mensalidades?

É claro que em algum momento dessa conversa eu deixei de lado os problemas dos seres humanos em questão e perguntei para a minha mãe, com mais de 10 anos de atraso:

Você ficou chateada por eu não ter aderido ao baile/jantar/cerimônia de formatura?

Ela disse que não, nunca. Fiquei meio preocupada mesmo assim, mas uns minutos atrás eu decidi que minha mãe simplesmente nem tinha essa expectativa. Ela sabe a filha que tem.

Tanto sabe que quando eu me formei de vestido jeans (talvez meio curto) na oitava série e minhas amigas com seus vestidos de festa questionaram o que minha mãe achava disso, eu só podia apontar que ela estava comigo na loja e pagou pelo vestido.

Já falei isso milhares de vezes, mas eu sempre tenho essa impressão de que a vida é um arco narrativo de “Malhação”, e em uma dada semana o tema será natal e brinquedos de infância e esse será o único assunto discutido. Ou o tema será gravidez e todas as suas amigas vão ficar grávidas na mesma semana, e vocês nunca mais terão mais do que 20 minutos de conversas adultas antes que o assunto seja desviado para “alimentação sólida” ou que a conversa inteira seja sequestrada por um grito qualquer de uma criança chamando a atenção para ela.

Mas onde eu estava mesmo? Ah, sim. Arco da semana. O arco da semana é: o quanto das nossas decisões deve seguir a nossa vontade, e o quanto deve ser guiado pela vontade dos outros?

E sabe onde eu vou chegar com isso? Em Fifth Harmony. Porque sim. Porque o drama pop da semana foi a menina que não queria mais ficar numa girlband. Porque convivência cansa mesmo. Porque ela tem 19 anos. Porque está fazendo isso faz 20% da vida dela. E, sei lá, porque talvez queira tentar fazer uma coisa que seja dela.

E ela nem vazou de cara, porque contratos e porque responsabilidades. Justo.

E enquanto isso ela precisou lidar com uma galera tentando convencer a não fazer isso. Porque as outras pessoas não queriam, e foda-se o que ela queria.

E quando ela finalmente consegue vazar, rola o pânico geral no fandom. Porque o fandom não quer que as coisas mudem, e foda-se mesmo o que ela quer.

De novo: o quanto das nossas decisões deve seguir a nossa vontade, e o quanto deve ser guiado pela vontade dos outros?

Eu digo isso como uma pessoa que consome com toda a alegria do mundo as reuniões de New Kids on the Block, Take That e Busted. E também como uma pessoa que entende que minha vontade de ouvir “Keep on movin’” ao vivo não é importante o suficiente para levar pessoas de volta para uma vida que claramente era tóxica para elas.

É óbvio que a vida é mais do que você, e o mundo é mais do que você, e se você não conseguir olhar para fora esse #2016 não vai acabar nunca. Mas nosso comportamento padrão parece ser: olhar só para perto, e esperar que os outros olhem, de longe, para você.

A vida é mais do que você, e o mundo é mais do que você. E meu primeiro instinto é esquecer do problema dos outros para pensar em um problema só meu. Mas o segundo pode ser largar mão do meu umbigo.

Aquele vestido jeans? Para mim, sempre foi uma concessão mútua. Minha mãe não me sugeriu um vestido de madrinha de casamento, e eu não falei que iria de calça jeans e camiseta.

A dor dos outros

Eu tenho muito dificuldade para ir em velório. Ok, ninguém aí exatamente gosta de ir em velório. Mas o que me causa mais ansiedade ultimamente não é só a constatação meio óbvia de que alguém morreu, sabe – isso causa tristeza, o que é diferente. A ansiedade é porque nos velórios em que eu tive que ir nos últimos anos eu percebi que tenho reações meio desproporcionais ao meu vínculo com a pessoa que morreu, ou com o que eu estava sentindo até dois metros antes da porta de entrada.

Na verdade eu tenho que me conter, sozinha e da forma mais discreta possível.

Começa quando eu vejo alguma pessoa. Os pais. O neto. Alguém que, com justiça, tem o direito de estar extremamente triste naquele momento. Muito mais triste do que eu. Muito mais triste do que eu estava, pelo menos.

E eu não consigo deixar de achar que estou fazendo errado. Como se eu estivesse tentando roubar aquele momento. Como se eu estivesse emprestando a dor de outra pessoa.

Ultimamente eu consigo pensar nessa situação e repetir para mim mesma que empatia não é uma coisa ruim. Mas continuo com aquela impressão de estar fazendo errado.

Considere que eu tenho tanta prática com sentimentos que este aqui é meu banner de twitter porque eu tive um momento de epifania quando li este trecho:

We call them feelings because we feel them. They don't start in our minds, they arise in our bodies.

Mas, enfim. Mesmo que eu não consiga convencer a mim mesma, ouçam a minha voz da razão: empatia não é uma coisa ruim. Se você esteve perto de chorar por histórias distantes, ou se cruzou essa fronteira – tudo bem. Não é uma coisa ruim. Aliás, é uma daquelas coisas que podem ser muito boas.

E não tem problema emprestar um pouco da dor de outra pessoa, porque a verdade é que existe dor o suficiente para todos.

A última palavra em últimas palavras

Odeio admitir certos comportamentos lamentáveis, mesmo aqueles de um passado cada vez mais distante. Mas, por muitos e muitos anos, eu queria muito ganhar de você. Qualquer você. Mas em um tipo bem específico de disputa: discussões. Eu queria saber tanto e estar tão certa que a única opção para você era concordar. Ou, pelo menos, desistir e silenciosamente aceitar.

Silenciosamente aceitar a derrota.

Por muitos e muitos anos, a vitória só chegava na última palavra – a bandeira que eu precisava conquistar. A última palavra era definitiva. Era o que sobrava de todos os nossos argumentos que haviam se cancelado mutuamente no ar entre você e eu.

Para quem queria essa vitória, saber tanto e estar tão certa não eram suficientes. Era preciso também ter aquela insistência – que eu chamaria de “obstinação” quando ela estava no meu bolso e de “teimosia” quando ela estava no seu chapéu. Ficar em silêncio é ficar sem argumentos. Ficar sem argumentos é admitir a derrota.

Odeio admitir derrota.

Mas ultimamente eu andava sem aquela insistência. No começo, eu apaguei aquele último argumento antes de enviar. Depois, eu não escrevia mais aquele último argumento. Por fim, nem imaginava mais aquela resposta definitiva. Eu só lia o que chegava, pensava “ok” e mudava de tab.

E eu só percebi isso lendo uma coluna do /ModernLove uns meses atrás.

Having the last word was once a sign of one’s wit and smarts. It meant that your comment had gravitas and staying power. But today, having the last word is the ultimate in weakness: It means being the person who doesn’t merit an answer. Better to leave them hanging than risk the same happening to you. Keep it shallow so your heart isn’t on the line.

E não é isso mesmo? Não virou muito pior causar o desinteresse do meu oponente? Ser a dona daquela mensagem lida-e-não-respondida? Ter meu último e desesperado argumento ecoando no abismo entre você e eu, para que todos saibam que ninguém mais liga?

(Para que todos saibam que ninguém mais liga para mim, ou para o que eu tiver a dizer?)

O texto da Emma Court era mais sobre a nossa dificuldade de nos expormos, o medo de sairmos machucado se não protegermos nossa vulnerabilidade atrás de um login com verificação em duas etapas. Mas essa parte sobre (não) ter a última palavra é mais do que isso.

Talvez o que existam agora sejam oportunidades demais de discussão, e discussões longas demais. Oponentes demais, oponentes violentos demais.

Não lutar pela última palavra talvez seja a saída saudável. Eu me retiro, em vez de (de)bater. Eu me retiro, em vez de bater em retirada. Eu parto com as minhas convicções, e deixo você com as suas.

Eu falei o que tinha para falar.

Eu fiz sentido.

Eu tentei.

Odeio admitir certos comportamentos lamentáveis. Odeio admitir derrota. Mas às vezes a última palavra acaba com mais do que uma discussão.

Baleia encalhada, minha página em branco

Eu tenho uma lista de coisas para fazer. Na verdade eu tenho um caderninho onde anoto as coisas que preciso fazer, e depois marco um x ao lado do que cumpri (e justifico constrangida aquilo que não deu).

O caderninho se chama TA-DA. Eu sei, genial.

Uns dias atrás eu percebi que estava ficando um pouco relaxada com a lista de coisas para fazer (ie, colocando poucas tarefas para não correr o risco de sobrar um monte de itens não cumpridos) e escrevi uma observação no caderninho:

– Preciso voltar a ter controle sobre o caderninho.

Mas em seguida eu percebi que o que eu deveria ter escrito era:

– Preciso que o caderninho volte a ter controle sobre mim.

Existe uma diferença enorme e doentia entre essas duas frases, mas é como eu me sinto (ou: como eu me sinto quando a lista funciona). O caderninho não funciona para me lembrar de nada – eu sei exatamente o que deveria fazer, mesmo que esteja sentada no sofá assistindo GNT e abastecendo a comida do Neko Atsume na hora em que eu deveria lavar a louça. O caderninho funciona para me mandar fazer as coisas.

Às vezes as coisas funcionam de um jeito meio torto, como aquela noite em que eu lavei a louça e tirei o lixo porque o item restante da lista era “preparar a apresentação para a defesa do doutorado”. Mas o importante é que depois de ter lavado a louça e tirado o lixo, eu preparei a apresentação para a defesa do doutorado. E, de bônus, quando eu terminei de preparar a apresentação eu já estava com a pia da cozinha em ordem e o lixo fora da minha casa.

Só vantagem.

O problema é que já faz uns cinco dias que o item não cumprido da minha lista se chama:

• Escrever um post.

Segundo a psicóloga, uma causa para quando você não faz aquilo que deveria fazer é medo de que não fique bom. Mania de que tudo fique perfeito. Porque você é boa. E perfeita. Ou quase. Ou provavelmente não. Definitivamente não é, especialmente se o post ficar uma droga.

Então está aqui o post. E é para publicar mesmo que ele não tenha ficado bom.

× Escrever um post.

Era uma vez um blog

Era uma vez um blog. E outro. E outro. E mais um. Alguns simultâneos. Outros secretos.

(Um deles era secreto até que eu mostrei para a minha melhor amiga, aí eu briguei com a melhor amiga e tive que derrubar o site.)

Era uma vez um blog, da época em que pessoas ainda faziam blogs (hoje elas fazem newsletters, amanhã elas farão hologramas pedindo socorro). E um blog de quando as pessoas já tinham desencanado de fazer blog.

(E antes de tudo isso, era uma vez um site, porque blogs ainda nem existiam.)

Está promissor.