A última palavra em últimas palavras

Odeio admitir certos comportamentos lamentáveis, mesmo aqueles de um passado cada vez mais distante. Mas, por muitos e muitos anos, eu queria muito ganhar de você. Qualquer você. Mas em um tipo bem específico de disputa: discussões. Eu queria saber tanto e estar tão certa que a única opção para você era concordar. Ou, pelo menos, desistir e silenciosamente aceitar.

Silenciosamente aceitar a derrota.

Por muitos e muitos anos, a vitória só chegava na última palavra – a bandeira que eu precisava conquistar. A última palavra era definitiva. Era o que sobrava de todos os nossos argumentos que haviam se cancelado mutuamente no ar entre você e eu.

Para quem queria essa vitória, saber tanto e estar tão certa não eram suficientes. Era preciso também ter aquela insistência – que eu chamaria de “obstinação” quando ela estava no meu bolso e de “teimosia” quando ela estava no seu chapéu. Ficar em silêncio é ficar sem argumentos. Ficar sem argumentos é admitir a derrota.

Odeio admitir derrota.

Mas ultimamente eu andava sem aquela insistência. No começo, eu apaguei aquele último argumento antes de enviar. Depois, eu não escrevia mais aquele último argumento. Por fim, nem imaginava mais aquela resposta definitiva. Eu só lia o que chegava, pensava “ok” e mudava de tab.

E eu só percebi isso lendo uma coluna do /ModernLove uns meses atrás.

Having the last word was once a sign of one’s wit and smarts. It meant that your comment had gravitas and staying power. But today, having the last word is the ultimate in weakness: It means being the person who doesn’t merit an answer. Better to leave them hanging than risk the same happening to you. Keep it shallow so your heart isn’t on the line.

E não é isso mesmo? Não virou muito pior causar o desinteresse do meu oponente? Ser a dona daquela mensagem lida-e-não-respondida? Ter meu último e desesperado argumento ecoando no abismo entre você e eu, para que todos saibam que ninguém mais liga?

(Para que todos saibam que ninguém mais liga para mim, ou para o que eu tiver a dizer?)

O texto da Emma Court era mais sobre a nossa dificuldade de nos expormos, o medo de sairmos machucado se não protegermos nossa vulnerabilidade atrás de um login com verificação em duas etapas. Mas essa parte sobre (não) ter a última palavra é mais do que isso.

Talvez o que existam agora sejam oportunidades demais de discussão, e discussões longas demais. Oponentes demais, oponentes violentos demais.

Não lutar pela última palavra talvez seja a saída saudável. Eu me retiro, em vez de (de)bater. Eu me retiro, em vez de bater em retirada. Eu parto com as minhas convicções, e deixo você com as suas.

Eu falei o que tinha para falar.

Eu fiz sentido.

Eu tentei.

Odeio admitir certos comportamentos lamentáveis. Odeio admitir derrota. Mas às vezes a última palavra acaba com mais do que uma discussão.