A dor dos outros

Eu tenho muito dificuldade para ir em velório. Ok, ninguém aí exatamente gosta de ir em velório. Mas o que me causa mais ansiedade ultimamente não é só a constatação meio óbvia de que alguém morreu, sabe – isso causa tristeza, o que é diferente. A ansiedade é porque nos velórios em que eu tive que ir nos últimos anos eu percebi que tenho reações meio desproporcionais ao meu vínculo com a pessoa que morreu, ou com o que eu estava sentindo até dois metros antes da porta de entrada.

Na verdade eu tenho que me conter, sozinha e da forma mais discreta possível.

Começa quando eu vejo alguma pessoa. Os pais. O neto. Alguém que, com justiça, tem o direito de estar extremamente triste naquele momento. Muito mais triste do que eu. Muito mais triste do que eu estava, pelo menos.

E eu não consigo deixar de achar que estou fazendo errado. Como se eu estivesse tentando roubar aquele momento. Como se eu estivesse emprestando a dor de outra pessoa.

Ultimamente eu consigo pensar nessa situação e repetir para mim mesma que empatia não é uma coisa ruim. Mas continuo com aquela impressão de estar fazendo errado.

Considere que eu tenho tanta prática com sentimentos que este aqui é meu banner de twitter porque eu tive um momento de epifania quando li este trecho:

We call them feelings because we feel them. They don't start in our minds, they arise in our bodies.

Mas, enfim. Mesmo que eu não consiga convencer a mim mesma, ouçam a minha voz da razão: empatia não é uma coisa ruim. Se você esteve perto de chorar por histórias distantes, ou se cruzou essa fronteira – tudo bem. Não é uma coisa ruim. Aliás, é uma daquelas coisas que podem ser muito boas.

E não tem problema emprestar um pouco da dor de outra pessoa, porque a verdade é que existe dor o suficiente para todos.

Baleia encalhada, minha página em branco

Eu tenho uma lista de coisas para fazer. Na verdade eu tenho um caderninho onde anoto as coisas que preciso fazer, e depois marco um x ao lado do que cumpri (e justifico constrangida aquilo que não deu).

O caderninho se chama TA-DA. Eu sei, genial.

Uns dias atrás eu percebi que estava ficando um pouco relaxada com a lista de coisas para fazer (ie, colocando poucas tarefas para não correr o risco de sobrar um monte de itens não cumpridos) e escrevi uma observação no caderninho:

– Preciso voltar a ter controle sobre o caderninho.

Mas em seguida eu percebi que o que eu deveria ter escrito era:

– Preciso que o caderninho volte a ter controle sobre mim.

Existe uma diferença enorme e doentia entre essas duas frases, mas é como eu me sinto (ou: como eu me sinto quando a lista funciona). O caderninho não funciona para me lembrar de nada – eu sei exatamente o que deveria fazer, mesmo que esteja sentada no sofá assistindo GNT e abastecendo a comida do Neko Atsume na hora em que eu deveria lavar a louça. O caderninho funciona para me mandar fazer as coisas.

Às vezes as coisas funcionam de um jeito meio torto, como aquela noite em que eu lavei a louça e tirei o lixo porque o item restante da lista era “preparar a apresentação para a defesa do doutorado”. Mas o importante é que depois de ter lavado a louça e tirado o lixo, eu preparei a apresentação para a defesa do doutorado. E, de bônus, quando eu terminei de preparar a apresentação eu já estava com a pia da cozinha em ordem e o lixo fora da minha casa.

Só vantagem.

O problema é que já faz uns cinco dias que o item não cumprido da minha lista se chama:

• Escrever um post.

Segundo a psicóloga, uma causa para quando você não faz aquilo que deveria fazer é medo de que não fique bom. Mania de que tudo fique perfeito. Porque você é boa. E perfeita. Ou quase. Ou provavelmente não. Definitivamente não é, especialmente se o post ficar uma droga.

Então está aqui o post. E é para publicar mesmo que ele não tenha ficado bom.

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